TRAVESSIA POÉTICA

2004 © manuel a. de castro

webdesigner: marcio-andre

 

Toda minha atividade se funda no exercício de pensamento poético em torno da referência Real/Homem enquanto Linguagem (physis/Logos). E ele se presentifica na tra-dução de uma Travessia Poética, pela qual cada ser humano se realiza no desabrochar do que ele é, na medida em que o próprio Real se desvela no ocultar-se. O exercício de pensamento poético se torna a experienciação contínua de configurar o limite sempre instável - porque poético - da eclosão do Real - finito/infinito - como horizonte de realização do próprio ser humano.
A essência do agir ou consumação do que é se estrutura num leque de dimensões que implicam: a linguagem, o sentido, a verdade e a libertação, gerando a dinâmica onde se inscreve todo agir ético. Realizar a Travessia Poética é agir eticamente, na medida em que cada um se projeta livremente a partir da resposta ao apelo da Linguagem, enquanto sentido e verdade do que somos. Presentificar a Travessia Poética é abrir-se para a essência do agir pelo qual cada um se apropria do sentido e verdade do destino que lhe é próprio, enquanto horizonte de visibilidade e escuta da voz da Linguagem/Ser. Na e como Travessia Poética o ser humano só conhece verdadeiramente se é o que conhece, recusando todo real como sistema de conhecimento. Só assim o pode experienciar como sabedoria - o saber raro, onde ambiguamente se trans-verte no que quer e não quer, sabe e não-sabe, é e não é. O homem humano - o ser humano - verte-se e trans-verte-se na tra-vessia ética e poética.


Experiências de Travessia.

"O ser é o eterno retorno do mesmo que difere indefinidamente de si mesmo. Ele é a travessia constante, o discurso contínuo, a tensão harmônica dos contrários." Ronaldes de Melo e Souza. In: "Epistemologia e hermenêutica em Bachelard". Rev. TB, 90, 1987, p. 69.

A Travessia não implica só um tempo, mas também um lugar/espaço. "Os espaços abrem-se pelo fato de serem admitidos no habitar do homem. Os mortais são, isso significa: em habitando têm sobre si espaços em razão de sua de-mora junto às coisas e aos lugares ... Sempre atravessamos espaços de maneira que já os temos sobre nós ao longo de toda travessia, uma vez que sempre de-moramos junto a lugares próximos e distantes, junto às coisas." Martin Heidegger. In: Ensaios e conferências. Petrópolis, Vozes, 2002, p. 136.

"No discurso mora sempre uma esperança, a esperança de ser uma ponte entre os dois mundos. Toda ponte realiza em seu ser um convite de travessia ... Assim não é para se chegar que se caminha pelos caminhos do silêncio nas falas. É simplesmente pela alegria de saber o sabor da diferença entre o ser e o nada na aventura criadora do sem-fim." Emmanuel Carneiro Leão. In: Aprendendo a pensar II. Petrópolis, Vozes, 1992, p. 28.

Toda escuta do que se é é Travessia. A música é o mar aberto do tempo onde a travessia é a escuta do que nos atrai. Mas que o doce canto e o encanto não nos matem, pois destruiria a travessia. A escuta é a própria travessia: a possibilidade de fazer da fala do silêncio a eclosão do sentido do que se é. A travessia é fazer eclodir no cotidiano o extra-ordinário. Para que não surja o trágico: fim da travessia, é necessário ter bem patente que a travessia é um movimento ambíguo: da fala para o silêncio e do silêncio para a fala: a eclosão da travessia é essa escuta. A palavra cantada é a palavra encantadora: a plenificação do sentido do que somos. "Atravessar o aberto do horizonte não deixa de ser o perigo de perder-se no canto do infinito, no canto doce e divino do aberto, do indeterminado, no aoristo da pura possibilidade." Márcia Sá Cavalcante Schuback. In: Ensaios de filosofia (org.). Petrópolis, Vozes, 1999, p. 173.


"Poético é não apenas o criar a obra, poético é também o guardar a verdade da obra, ainda que à sua própria maneira...". Martin Heidegger. A origem da obra de arte.


Travessia e o círculo Poético


Travessia

Nem sempre o Dicionário assinala a riqueza de Linguagem da palavra. É o caso de Travessia. Um estrangeiro que a consulte no dicionário dificilmente irá compreender o que quer dizer e sugerir Guimarães Rosa, ao fechar/abrir sua obra-prima Grande sertão:veredas com ela, isolada, soberana, entre dois pontos, reunindo as pontas da obra, quando começa: "Nonada..." e termina com o signo: µ - infinito. Entre o "nada" (No-nada) e o infinito ( µ ), a "travessia", visível, sensível, acessível, um processo sempre poético: Travessia poética.

O poético desce à raiz e nascente do real, porque o real tem raiz e nascente: é a Linguagem. A travessia é o real se manifestando como Linguagem, que se opera em obra. Grande sertão: veredas é a travessia do real como Linguagem: o homem se tornando homem. A raiz de tra-vessia nos dá o ex-istir do "homem humano".

O uni-verso de tra-vessia. Tanto uni-verso como tra-vessia têm origem no mesmo verbo: verto, versum, vertere. Este verbo é rico de significados: virar, voltar, desviar, desencaminhar: lavrar a terra; fugir; derrubar, destruir; mudar, trocar, transformar; traduzir; ridicularizar; interpretar; achar-se; depender de. Esta raiz tão rica de significados ainda dá origem a numerosos verbos: adverto, anteverto, averto, circunverto, converto, controversus, deverto, diverto, everto, inverto, obverto, perverto, praeverto, reverto, subverto, transverto.
Trans-verto: dirigir além de; converter; transformar; transversum: de través.
Trans (tra) significa: além de, para lá de, de parte a parte.
A multiplicidade de significados e de verbos compostos não é, como aparentemente parece, uma questão de riqueza semântica, mas indicia um núcleo forte e essencial de efervescência do real eclodindo como Linguagem de diferentes modos, tendo como origem o nascer, o tornar-se. Como experienciação de Linguagem é que o ser humano se faz humano. Tra-vessia é o caminho de perdas e ganhos nas escolhas (ex-cum-legere) da vida. Travessia é a presentificação/doação do Destino.

É aí que se inscreve a ambigüidade poética: o doar-se e retrair-se do Real na palavra manifestadora. A Travessia Poética se tra-duz numa Paidéia Poética, onde e-ducar é e-ducar-se na e pela clareira do aberto das possibilidades de realização das diferenças, a partir do vigor da Destinação do que já desde sempre somos. Toda obra e interpretação poética articula um e-ducar em sentido poético, na medida em que diz e pensa o ser humano e o Ser, a diferença e a diferença da diferença enquanto Destino.
À eclosão-presentificação-doação é que denomino propriamente Travessia Poética. Esta se dá como experiência poética de pensamento, tendo como dinâmica manifestativa a visibilidade do horizonte da identidade e da diferença.