Os
compêndios e manuais adotados no curso fundamental ensinam que
há três gêneros principais de composição
em prosa: a descrição, a narração e a dissertação.
É a classificação tradicional, que leva em conta,
precipuamente ou exclusivamente, o feitio artístico da composição.
Seguindo esses moldes, os professores vimos ensinando como fazer descrições
de "pôr-do-sol", de "praias de banho", narrações
de "passeios ao campo de "piqueniques", de "minhas
férias" , dissertações sobre "meus colegas",
a "amizade", o "dever" e temas quejandos. São
evidentemente exercícios úteis e indispensáveis,
que servem, além do mais, como "abertura de caminhos para
outros rumos", propiciando a revelação de vocações
literárias. Mas tais revelações são raras,
e, ainda que o não fossem, os que as têm acabam mais tarde
"abrindo caminho" por si mesmos. E os outros, os que não
serão literatos, mas profissionais de quem se exige preparo mais
prático?
Esses
outros, futuros técnicos em geral, quer de nível universitário
- engenheiros, médicos, economistas, pesquisadores - quer de
nível médio - mecânicos, eletricistas, desenhistas
- terão de fazer outras espécies de composição,
das quais nem sequer ouviram falar nas salas de aula, tanto do curso
fundamental quanto do universitário: descrição
de peças e aparelhos, de funcionamento de mecanismos, de processos,
experiências e pesquisas, redação de artigos científicos,
relatórios e teses, de manuais de instrução, de
sumários e resenhas científicas e outros tipos de redação
técnica ou científica.
Os
únicos exercícios de composição não
literária propriamente dita que se fazem no curso fundamental
(de humanidades ou de comércio) são os de "redação
oficial" e de "correspondência comercial e bancária",
que poderiam ser englobadas na denominação genérica
de "correspondência administrativa". Apesar de apresentarem
ambas certa feição cabalística, que exige treinamento
especial, com muitas das suas variedades todos nos familiarizamos facilmente,
tanto é certo que existe em cada um de nós, nos quatro
cantos deste Brasil imenso, um funcionário público em
estado de latência como sinal da nossa brasílica vocação
burocrática.
Ora,
há muito tempo, felizmente, que o Brasil deixou de ser essencialmente
terra de bacharéis e funcionários públicos; há
muito tempo que seu futuro já não depende exclusivamente
da habilidade amanuense de redigir minutas de decretos, ofícios
e requerimentos. Hoje - um "hoje" que já não
é recente - as atividades de iniciativa privada se avolumaram
de tal forma e tal complexidade atingiram, que já não
tem cabimento limitarem-se as nossas escolas e compêndios ao ensino
exclusivo de descrições de "pôr-do-sol"
ou de redação de ofícios. Urge, portanto, ensinar
também aos nossos jovens coisas menos líricas ou menos
burocráticas, com o duplo objetivo de lhes ensejar melhores oportunidades
de trabalho e de atender à crescente demanda de pessoal especializado,
que é enorme nas empresas privadas.
O que é redação técnica
Por
essa introdução, pode o leitor pensar que redação
técnica é algum bicho-de-sete-cabeças. Não
é. Na verdade, os princípios básicos em que se
assenta são os mesmos de qualquer tipo de composição
(clareza, correção, coerência, ênfase, objetividade,
ordenação lógica, etc.), embora sua estrutura e
seu estilo apresentem algumas características próprias.
Na
definição sumária de Margaret Norgaard, redação
técnica é qualquer espécie de linguagem escrita
que trate de fatos ou assuntos técnicos ou científicos",
e cujo estilo "não deve ser diferente de outros tipos de
composição". Ressalte-se, entretanto, como faz a
própria Autora, a relevância da clareza, da lógica
e da precisão, qualidades que não excluem a imaginação.
"A redação técnica - acrescenta a Autora -
é necessariamente objetiva quanto ao ponto de vista, mas uma
objetividade completamente desapaixonada torna o trabalho de leitura
penoso e enfadonho por levar o autor a apresentar os fatos em linguagem
descolorida, sem a marca da sua personalidade. Opiniões pessoais,
experiência pessoal, crenças, filosofia de vida e deduções
são necessariamente subjetivas, não obstante constituem
parte integrante de qualquer redação técnica meritória."
A
bem dizer, toda composição que deixe em segundo plano
o feitio artístico da frase, preocupando-se de preferência
com a objetividade, a eficácia e a exatidão da comunicação,
pode ser considerada como redação técnica. Nesse
caso, a redação oficial, a correspondência comercial
e bancária, os papéis e documentos notariais e forenses
constituem redação técnica. Entretanto, parece
conceito pacifico o de que tal expressão designa apenas aquelas
formas de comunicação escrita de incontestável
caráter científico, e especialmente da área das
ciências experimentais. É nesse sentido restrito que passamos
a empregar as expressões equivalentes redação
técnica ou redação científica.
Tipos de redação técnica ou científica
Há
diversos tipos de redação técnica: as descrições
e narrações técnicas propriamente ditas, os manuais
de instrução, os pareceres, os relatórios, as teses
e dissertações científicas (monografias em geral)
e outros. Alguns não chegam a ter individualidade própria,
já que são sempre parte de outros, como as duas primeiras
citadas e mais o sumário científico. O mais importante
de todos, entretanto, é o relatório, não só
porque há dele várias espécies mas também
porque, dada a sua estrutura, nele se pode incluir um grande número
de trabalhos de pesquisas usualmente publicados em revistas científicas
sob a denominação genérica de "artigos".
O
estudo da estrutura e das características formais dos diferentes
tipos de redação técnica exigiria um desenvolvimento
que esta obra já não pode comportar, pois além
das prescrições de ordem geral, seria indispensável
apresentar certo número de modelos comentados. Em virtude disso,
vamos limitar-nos à descrição técnica, que
está presente em todos os tipos de redação científica,
e ao relatório.
Descrição de objeto ou ser
A
descrição técnica apresenta, é claro, muitas
das características gerais da literária, porém,
nela se sublinha mais a precisão do vocabulário, a exatidão
dos pormenores e a sobriedade de linguagem do que a elegância
e os requisitos de expressividade lingüística. A descrição
técnica deve esclarecer, convencendo; a literária deve
impressionar, agradando. Uma traduz-se em objetividade; a outra sobrecarrega-se
de tons afetivos. Uma é predominantemente denotativa; a outra,
predominantemente conotativa.
A
descrição técnica pode aplicar-se a objetos
(sua cor, forma, aparência, dimensões, peso, etc.), a aparelhos
ou mecanismos, a processos (funcionamento de mecanismos, procedimentos,
fases de pesquisas), a fenômenos, fatos, lugares, eventos.
Mas nenhum desses temas lhe é exclusivo; eles podem sê-lo
também da literária. O que, então, distingue essas
duas formas de composição é o objetivo
e o ponto de vista: a descrição que Eça
de Queirós faz da sala de Jacinto - segundo o exemplo que oferecemos
em Par. 3.3.1.6 - é bem diversa, quanto ao objetivo,
da que faria um policial encarregado de descrevê-la num relatório,
se nela tivesse ocorrido um crime de morte. Muito diversas hão
de ser, pelo mesmo motivo, as descrições de uma borboleta
feitas por um romancista em cena bucólica e por um entomologista
debruçado sobre o microscópio.
O
ponto de vista é tão importante quanto o objetivo;
dele dependem a forma verbal e a estrutura lógica da descrição:
qual é o objeto a ser descrito (definição denotativa)?
que parte dele deve ser ressaltada? de que ângulo deve ser encarado?
que pormenores devem ser examinados de preferência a outros? que
ordem descritiva deve ser adotada? (lógica? psicológica?
cronológica?) a quem, a que espécie de leitor se destina?
a um leigo ou a um técnico?
Assim,
uma vitrola ou uma máquina de lavar roupa podem ser descritas
do ponto de vista: a) do possível comprador (legenda de propaganda);
h) do usuário (o jovem ou dona-de-casa que de uma ou de outra
se vão servir); c) do técnico encarregado da sua montagem
ou instalação; d) do técnico que terá eventualmente
de consertá-la. São fatores que precisam ser levados em
conta, pois deles dependem a extensão, a estrutura e o estilo
da descrição técnica.
O
seguinte exemplo pode dar-nos uma idéia do que deve ser esse
tipo de composição:
O
motor está montado na traseira do carro, fixado por quatro
parafusos à caixa de câmbio, a qual, por sua vez,
está fixada por coxins de borracha na extremidade bifurcada
do chassi. Os cilindros estão dispostos horizontalmente
e opostos dois a dois. Cada par de cilindros tem um cabeçote
comum de metal leve. As válvulas, situadas nos cabeçotes,
são comandadas por meio de tuchos e balancins. O virabrequim,
livre de vibrações, de comprimento reduzido, com
têmpera especial nos colos, gira em quatro pontos de apoio
e aciona o eixo excêntrico por meio de engrenagens oblíquas.
As bielas contam com maneais de chumbo-bronze e os pistões
são fundidos de uma liga de metal leve.
Manual
de instruções(Volkswagen)
|
Trata-se de parágrafo de descrição que tem em vista
o usuário em geral, leigo - pois o emprego de termos técnicos
está reduzido ao mínimo indispensável ao seu esclarecimento.
A
descrição tipicamente científica, descrição
de campo ou de laboratório, consiste muitas vezes numa enumeração
detalhada das características do objeto ou ser vivo. Neste caso,
ela se caracteriza por uma estrutura de frases curtas, em grande parte
nominais, como no seguinte exemplo, em que o Autor faz a descrição
de um holótipo de Hyla rizibilis. A ordem da descrição
é a lógica: o Autor começa pela cabeça (suas
dimensões em relação ao corpo), e vai detalhando:
os olhos, o tímpano, as narinas, os dentes, a língua,
os membros superiores e inferiores, etc. O último parágrafo
da descrição é destinado a indicar a aparência
do conjunto, destacando o colorido dorsal. O seguinte fragmento é
ilustrativo:
Membros
anteriores curtos e robustos; o antebraço mais desenvolvido
do que o braço. Dedos longos e robustos, os externos unidos
por uma membrana vestigiária. Discos do tamanho do tímpano,
o do polegar um pouco menor. Polegar com prepólex rudimentar;
calos subarticulares e carpais bem desenvolvidos. |
Note-se: vocabulário de sentido exclusivamente denotativo ou
extensional, frases curtas, muitas delas nominais, ausência de
afetividade lingüística.
Eric
M. Steel dá-nos um exemplo muito ilustrativo de descrição
de objeto - um relógio de parede, daqueles antigos. Como o trecho
é muito extenso, limitamo-nos apenas ao plano, suficiente por
si mesmo como orientação:
Plano
da descrição de um relógio de parede
1.Visão
de conjunto:
a) função ou finalidade: marcar o tempo;
b) modo de operação ou funcionamento (pêndulo);
c) aparência: alto, de madeira, com tais e tais dimensões,
etc.
d) partes componentes: a caixa, o mostrador, etc.
2.
Descrição detalhada das partes:
a) a caixa;
b) o mostrador;
c) o mecanismo.
3.
Conclusão
|
Descrição de processo
Quando
o propósito é mostrar o funcionamento de aparelho ou mecanismo
ou os estágios de um procedimento (como, por exemplo, as fases
da fabricação de um produto, de um trabalho de pesquisa,
de uma investigação ou sindicância), tem-se a descrição
de processo, a que Gaum dá o nome de exposição
narrativa, cujas características principais são:
-
exposição em ordem cronológica;
-
objetividade: nada de linguagem abstrata ou afetiva;
-
ênfase
na ação, que deve ser suficientemente detalhada;
-
indicação clara das diferentes fases do processo;
-
ausência de suspense: ao contrário da narração
literária, o interesse da descrição de processo
não deve depender da expectativa ou suspense.
O
núcleo, miolo ou corpo de quase todos os relatórios técnicos
é, em essência, uma descrição de processo,
uma exposição narrativa.
Esse
tipo de descrição é, talvez, o mais difícil
por exigir do autor não apenas conhecimento completo e pormenorizado
do assunto, mas também muito espírito de observação
e senso de equilíbrio: se ela sai por demais detalhada, pode
tornar-se confusa; se muito simplificada, pode revelar-se incompleta
ou inadequada. Por isso é que quase toda descrição
de processo vem acompanhada de ilustração (desenho, mapas,
diagramas, gráficos, etc.), não apenas como esclarecimento
indispensável mas ainda como meio, por assim dizer, de "dosar"
os detalhes.
O
seguinte parágrafo pode servir como amostra de descrição
de processo:
| Transmissão
de um programa de rádio
Os
sons que se produzem dentro do campo de ação do
microfone são por estes captados e transformados em corrente
elétrica equivalente. Estas correntes, devido ao fato de
serem extremamente fracas, são conduzidas a um pré-amplificador
de microfone, que as amplifica convenientemente, depois do que
são transferidas para um amplificador de grandes dimensões,
chamado modulador. Existe no equipamento transmissor um circuito
gerador de alta freqüência, que fornece a onda a ser
irradiada pela Estação. Esta onda de R. F. (alta
freqüência) será misturada com as correntes
de som amplificadas pelo modulador, e transmitidas no espaço
por meio de uma antena transmissora. A figura 79 mostra-nos resumidamente
todo o processo acima descrito.
(Martins,
0. N., Curso prático de rádio, p. 127) |
Note-se:
a)
o propósito (transmissão de programa de rádio);
b)
os estágios sucessivos do processo (1º, sons captados,
2º, transformados, 3º, correntes elétricas conduzidas
e 4º, amplificadas, 5º, transferidas a um amplificador de
grandes dimensões, 6º, onda de R.F. misturada com as correntes
amplificadas e, por fim, 7º, transmitidas pela antena);
c)
as partes componentes (microfone, pré-amplificador,
modulador, etc.); e, por último,
d)
o resultado (transmitidas no espaço por meio de uma antena).
O
relato de experiência de laboratório é uma descrição
de processo, como se vê no seguinte exemplo:
Oxidação
com permanganato em meio peridínico
Dissolveram-se
0,5g de ciantolina em 500ml de piridina, em ebulição,
e adicionaram-se com pequenos intervalos 2g de permanganato
de potássio. A mistura foi refluxada durante 7 horas
e deixada em repouso por um dia. Após esse período,
aqueceu-se mais uma hora e filtrou-se o líquido peridínico
a quente. Destilou-se a maior parte da piridina, recolhendo-se
ao esfriar 0,3g da ciantolina cristalizada com P.F. 278-279oC.
O resíduo do filtro foi lavado com 20ml de água
quente (80ºC), quatro vezes, e o total dos líquidos,
depois de frio, acidificado com ácido clorídrico
ao vermelho Congo. Precipitou-se o ácido orgânico,
com aspecto gelatinoso, que foi, por centrifugação,
separado e lavado várias vezes, secando-se a seguir em
um dessecador a vácuo. Obtiveram-se 0,086g (13,5%) do
ácido I, fundindo-se a 368-372ºC. Depois do tratamento
com água acidulada (aproximadamente pH 4; HCI), em ebulição,
e ulterior cristalização em dioxano etanol (1:
1), o seu ponto de fusão elevou-se a 375-378ºC (decomposição).
|
Note-se que, apesar do vocabulário técnico, a descrição
se faz de maneira clara e objetiva: a cada fase ou estágio da
experiência corresponde um período sucinto (o mais extenso
deles tem apenas três orações) com escassa subordinação.
Note-se ainda o feitio impessoal da exposição narrativa:
"dissolveram-se...", "a mistura foi refluxada...",
"aqueceu-se..." etc., em vez de "dissolvemos", "refluxamos"
ou "aquecemos", isto é, voz passiva e não ativa.
Plano-padrão de descrição de objeto ou processo
Apoiados
nesses elementos básicos (estrutura, características,
objetivo e ponto de vista), podemos esboçar o seguinte plano-padrão
para a descrição técnica de objeto e de processo,
de modo geral:
A.
Objeto
1. Qual é o objeto?
2. Para que serve?
3. Qual é a sua aparência (forma, cor, peso, dimensões,
etc.)?
4. Que partes o compõem?
a)........ (descrição detalhada);
b)........ (idem)
etc
B.
Processo (funcionamento)
1. Principio científico em que se baseia.
2. Normas a seguir para pô-lo em funcionamento.
3. Fases ou estágios do funcionamento.
C.
Conclusão (p. ex.: apreciação das qualidades,
visão de conjunto, aplicações práticas,
etc.)
|
Relatório
administrativo
O
relatório é um dos tipos mais comuns de redação
técnica, dada a variedade de feições que assume:
muitos artigos publicados em revistas científicas, muitos papéis
que circulam em repartições públicas ou empresas
privadas, contendo informações sobre a execução
de determinada tarefa ou explanação circunstanciada de
fatos ou ocorrências, pesquisas científicas, inquéritos
e sindicâncias, nada mais são do que relatórios.
É verdade que só recebem essa designação
aqueles documentos que apresentam certas características formais
e estilísticas próprias: titulo, "abertura"
(origem, data, vocativo, etc.) e "fecho" (saudações
protocolares e assinatura). Algumas vezes, consiste numa exposição
rápida e informal de caráter pessoal; outras, assume formas
mais complexas e volumosas, como os relatórios de gestão,
quer do serviço público quer de empresas privadas.
O
relatório, seja técnico seja administrativo, engloba variedades
menores de redação técnica propriamente dita: descrição
de objeto, de mecanismo, de processo, narrativa minuciosa de fatos ou
ocorrências, explanação didática, sumário,
e até mesmo a argumentação, que, entretanto, não
é um gênero menor.
Há
várias espécies de relatório. Odacir Beltrão"
nos dá uma lista bem numerosa deles: de gestão (relatórios
empresariais periódicos), de inquérito (administrativo,
policial e outros), parcial, de rotina, de cadastro,
de inspeção (ou de viagens), de pesquisa
(ou científico), de tomada de contas, de processo,
contábil, e o relatório-roteiro (elaborado
com base em modelo ou formulário impresso).
São,
como se vê, variedades especiais, que só a prática
pode ensinar. Entretanto, quase todos têm certas características
comuns de qu o leitor se poderá assenhorear. É o que pretendemos
proporcionar-lhe nas páginas seguintes, distinguindo apenas o
relatório administrativo d técnico propriamente dito.
Estrutura
do relatório administrativo
O
relatório administrativo é uma exposição
circunstanciada d fatos ou ocorrências de ordem administrativa:
sua apuração ou investigação para a prescrição
de providências ou medidas cabíveis. Sua estrutura compreende,
além da "abertura" e do "fecho":
1.
Introdução: indicação do
fato investigado, do ato ou da autoridade que determinou a investigação
e da pessoa ou funcionário disso incumbido. Enuncia,
portanto, o propósito do relatório.
2.
Desenvolvimento (texto, núcleo ou corpo do relatório):
relato minudente dos fatos apurados, indicando-se:
a) a data;
b) o local;
c) o processo ou método adotado na apuração;
d) discussão: apuração e julgamento dos
fatos.
3.
Conclusão e recomendações de providências
ou medidas cabíveis.
|
Todo relatório
propriamente dito, seja administrativo seja técnico ou científico,
tem uma "abertura" e um "fecho", cuja forma e disposição
variam de acordo com as praxes adotadas nas empresas ou repartições
públicas. Mas, em geral, na primeira vem a indicação
do local ou origem, da data, da repartição ou serviço,
às vezes a ementa ou sumário, e o vocativo. No segundo,
as formas protocolares usuais. Em certos casos, quando o relatório
é muito extenso, como costumam ser os de gestão, relatórios
periódicos destinados a publicação, esses elementos
costumam vir em separado, constituindo uma espécie de carta ou
oficio de "encaminhamento", ou de apresentação,
a que os americanos dão o nome de letter of transmittal.
Alguns
relatórios costumam incluir ainda material ilustrativo: diagramas,
mapas, gráficos, desenhos, etc., que podem vir incorporados no
texto ou sob a forma de apêndice e anexos.
enedicto
Silva apresenta na sua monografia Publicidade administrativa,,,
os critérios recomendados na organização de relatórios,
critérios que resultaram de uma sondagem da opinião pública
feita nos Estados Unidos em 1927 pela National Municipality Review.
No que respeita à composição ou estrutura, lá
se recomenda a inclusão dos seguintes elementos:
a)
"Sumário - Um sumário no inicio
do relatório facilita enormemente as consultas.
b)
"Organograma - Os organogramas dos serviços
prestados por cada órgão, se colocados no início
do relatório, auxiliam o leitor a compreender melhor
o que se segue.
c)
"Ofício de apresentação -
Abrir o relatório com um pequeno ofício de apresentação,
do qual constem um resumo das realizações mais
notáveis e as recomendações para o futuro.
d)
"Realizações e recomendações
- Uma comparação das recomendações
passadas com o progresso feito na execução das
mesmas serve como indício das realizações
anuais.
e)
"Extensão - No máximo 50 páginas.
f)
"Estilo - Além de claro e conciso, o texto
deve refletir a necessária atenção à
gramática, sintaxe e propriedade de expressão.
g)
"Disposição - As partes referentes
às várias repartições ou serviços
devem corresponder à estrutura do governo ou seguir algum
outro critério lógico.
h)
"Equilíbrio na distribuição da
matéria - O material exposto deve perfazer uma pintura
completa, ocupando cada atividade espaço proporcional
à sua importância.
i)
"Estatísticas - Aconselha-se a inclusão
de estatísticas, mas, quando indicado, devem as mesmas
ser completadas por diagramas ou gráficos simples.
j)
"Dados comparativos - As realizações
do ano em curso devem ser comparadas com as dos anos anteriores,
tomando-se, porém, em consideração todos
os fatores ocorrentes.
k)
"Demonstrações financeiras - Incluir
três ou quatro demonstrações financeiras
que indiquem a importância despendida e os meios de financiamento
relativos a cada função e órgão.
I)
"Propaganda - A inclusão de matéria
para exaltação de pessoas, repartições
ou serviços é considerada contrária à
ética e de mau gosto. Retratos de autoridades, especialmente
de administradores em exercício, ficam inteiramente deslocados
num relatório oficial."
|
Como se vê,
trata-se de recomendações aplicáveis à preparação
de relatórios públicos e periódicos, assunto que
tem merecido também a atenção dos nossos poderes
públicos, tanto assim que já existe, de longa data, legislação
especial, como é o caso dos Decretos S.808, de 13 de junho de
1940, e 13.565, de I? de outubro de 1943, este último acompanhado
de uma Exposição de Motivos do DASP com "Normas para
relatório anual".
O modelo que se transcreve abaixo, apesar de muito simples, dá
ao leitor uma idéia da estrtitura dos relatórios mais
comuns:
Rio
de Janeiro, 28 de outubro de 1946.
Tendo
sido designado para apurar a denúncia de irregularidades
ocorridas no Departamento dos Correios e Telégrafos,
submeto à apreciação de V. Sª, para
os devidos fins, o relatório das diligências que,
nesse sentido, efetuei.
2.
Em 10 de setembro de 1946, dirigi-me ao chefe da Seção
"A", para inquirir os funcionários X e Y, acusados
do extravio de valores endereçados à firma S e
L, desta praça.
3.
Ambos negaram a autoria da violação da mala da
correspondência, conforme termos constantes das declarações
anexas.
4.
No inquérito a que se procedeu, ressalta a culpabilidade
do funcionário X, sobre quem recaem as mais fortes acusações.
5.
O segundo apesar de não se poder considerar mancomunado
com o primeiro, tem parcela de responsabilidade, pois agiu por
omissão, sendo negligente no exercício de suas
funções. Como chefe de turma, devia estar presente,
na ocasião da abertura da mala em apreço - o que
não ocorreu, conforme depoimento de fis......
6.
Do exposto conclui-se que somente o inquérito policial
poderá esclarecer o crime perpetrado com a violação
da mala de correspondência da Seção "A".
7.
Impõe-se instauração imediata de processo
administrativo. É o que me cumpre levar ao conhecimento
de V. S?.
Aproveito
a oportunidade para apresentar-lhe protestos de minha distinta
consideração.
a).............................
|
Relatório
técnico ou artigo-relatório:
dissertações
científicas e monografias em geral
Por
razões de ordem didática, incluímos na categoria
de relatório técnico ou científico os trabalhos
de pesquisa de campo ou laboratório (descrições
de experiências ou ensaios, preparação de projetos
ou planos, etc.). Trabalhos dessa ordem costumam aparecer em revistas
especializadas, e, conquanto sua apresentação formal nem
sempre seja a de relatório, por lhes faltarem a "abertura"
e o "fecho" protocolares, sua estrutura sem 're o é.
Seu plano ou esquema compreende:
Sumário
Em muitas empresas privadas e repartições públicasse
vem generalizando o costume de pôr em destaque, entre a data e
o vocativo, uma síntese do assunto do relatório, a que
se dá também o nome de ementa. Quando o trabalho é
muito extenso, esse resumo se alonga também proporcionalmente
(3 % a 5 % do texto). Neste caso, é propriamente o sumário.
É com esse nome que aparece nas publicações científicas,
antes ou depois do contexto propriamente dito. Se a revista mantém
intercâmbio com suas congêneres estrangeiras, é de
regra vir no fim, muitas vezes traduzido em outras línguas (summary
ou abstract, em inglês, résumé
em francês, sumario em espanhol e Zusammenassung
em alemão). Muitos preferem-no anteposto ao texto.
O
sumário deve conter o assunto de forma tal, que o leitor se anime
a ler todo o texto, se o conteúdo lhe interessar. A melhor maneira
de fazer o sumário é seguir o plano do próprio
relatório ou artigo-relatório, pois assim se torna mais
fácil destacar as partes substanciais do contexto, em função
da sua posição, da ordem lógica, do espaço
disponível, da ênfase que lhe é dada, do propósito,
da conclusão e das recomendações. Tudo isso deve
estar sinteticamente incluído no sumário. Portanto, ele
deve conter:
-
indicação clara do assunto;
-
o propósito do relatório ou artigo;
-
referência ao aparato ou aparelhagem ou, se for o caso, às
pesquisas ou investigações realizadas;
-
método adotado (procedimento);
-
conclusões, que podem incluir recomendações.
Tudo isso tem de ser exposto no mesmo tom, no mesmo estilo, dando-se
a cada uma das partes a mesma ênfase que elas têm no texto.
O melhor critério para sumariar deve levar em conta o teor de
cada parágrafo; pode-se mesmo dizer que, se os parágrafos
estão bem redigidos, cada tópico frasal já é,
em si mesmo, o seu resumo. Se o tópico frasal está, por
assim dizer, diluído no texto do parágrafo, é indispensável
refundi-lo em frase curta e sucinta.
Introdução
Em
seguida à ementa (nos relatórios administrativos) ou sumário
(no técnico) - ambos titulados como tais - vem a introdução,
também de preferência titulada.
A
introdução deve levar em consideração os
seguintes requisitos:
-
deve despertar o interesse imediato do leitor, seja ele leigo seja
entendido, orientando-o quanto à verdadeira natureza do assunto;
-
deve deixar claro se se trata de um trabalho formal ou informal,
quer dizer, se apresenta já conclusões definitivas
ou se constitui apenas um subsidio com dados preliminares ou provisórios,
-
o tópico frasal de um dos parágrafos iniciais deve
conter a tese em termos sucintos e claros;
-
a extensão da introdução varia proporcionalmente
à do texto completo: em geral, não ultrapassa ou não
deve ultrapassar 5% do total de palavras do texto.
No
que diz respeito ao requisito a), é possível e, em certos
casos, aconselhável, iniciar o relatório com referência
a fatos, episódios, circunstâncias que se relacionem com
o assunto em pauta ou que o tenham diretamente provocado ou sugerido.
Desenvolvimento:
métodos, resultados, discussão
O desenvolvimento é o "miolo", a substância mesma
do relatório ou relatório-artigo de natureza técnica
ou científica. Essa parte nunca aparece titulada como "desenvolvimento"
propriamente dito, mas discriminada geralmente em três seções:
I
Métodos - que compreendem não apenas a indicação
dos processos adotados na apuração e análise dos
fatos mas também a própria descrição ou
exposição narrativa da experiência ou pesquisa e
da aparelhagem e material empregados. Consiste essencialmente numa típica
descrição de processo feita em ordem lógica ou
cronológica. Quase sempre o parágrafo inicial dessa parte
enuncia o assunto sem rodeios: "0 método adotado consistiu
em..." Em versão francesa, usa-se às vezes a expressão
Technique em lugar de "Métodos". Alguns autores
são mais explícitos, servindo-se da denominação
"Material e Métodos".
II
Resultados - Indicado o método e descrita a experiência,
expõem-se os "resultados" , que são, de regra,
a segunda parte do desenvolvimento. AI, como o nome o indica, apresentam-se
os resultados imediatos da pesquisa, ie., o que realmente se
apurou.
III
Discussão - É a interpretação
dós resultados, a indicação da sua importância,
dos seus corolários e conseqüências. Alguns autores
incluem os "resultados" no tópico da "discussão".
Também aqui, o parágrafo inicial assume feição
típica, sem rodeios: "O principal interesse destas experiências
reside no fato de que..." ou "A interpretação
dos nossos resultados (ou "a única interpretação...")
é a de que..." O estilo dessa parte é primordialmente
argumentativo: trata-se de convencer pela apresentação
de razões, que são os próprios fatos apurados e
interpretados.
Características formais do desenvolvimento
Constituem
características formais e estilísticas do desenvolvimento:
-
apresentar
os fatos de maneira objetiva, sem rodeios, de modo a constituírem
fundamentos insofismáveis para as conclusões e recomendações;
-
esclarecer o leitor quanto ao ponto de vista em que se coloca o
autor;
-
caracterizar-se pela exatidão das definições
e das descrições evitando-se tanto quanto possível
o emprego da linguagem afetiva: metáforas de vinco artístico
mas iludíveis, preciosismo vocabular que não o exclusivamente
técnico, analogias e comparações cujo segundo
termo não seja mais familiar, mais conhecido, do que o primeiro;
-
seguir sempre um encadeamento de idéias de maneira lógica,
coerente, objetiva;
-
cuidar atentamente das partículas de transição,
que devem estabelecer relações de maneira inconfundível;
-
evitar raciocínio falacioso (sofismas);
-
demarcar claramente os estágios sucessivos da apuração
dos fatos;
-
documentar ou ilustrar com gráficos, mapas, tabelas. figuras,
etc., quando necessário e em lugar adequado, fazendo-se sempre
chamadas ou remissões no texto, mesmo que tais elementos
venham em apêndices.
Conclusão
A
conclusão depende do assunto e da natureza do desenvolvimento.
Sua extensão e destaque são, assim, variáveis.
Não obstante, é possível indicar alguns dos seus
requisitos básicos.
Ela
pode consistir:
-
numa série de inferências a partir dos fatos apresentados,
discutidos e interpretados, caso em que assume com freqüência
uma forma verbal própria: "Conclui-se, assim (portanto,
em vista do exposto...), que: 1º, ...........; 2º .............;
3º............etc. ";
-
na repetição, em outros termos, do que já esteja
contido no sumário anteposto ao texto;
-
na retomada das conclusões parciais a que se possa ter chegado
nos diferentes estágios da pesquisa e da discussão.
Mas,
qualquer que seja sua forma ou extensão, a conclusão deve
ser redigida de tal modo que a idéia-núcleo do relatório,
artigo ou monografia se revele e se fixe claramente no espírito
do leitor.
Recomendações
Todo relatório propriamente dito inclui as recomendações,
isto é, a proposição de medidas ou providências
julgadas necessárias como decorrência dos fatos apurados
e discutidos. O artigo-relatório, entretanto, não as inclui,
substituindo-as às vezes por uma espécie de previsão
ou profecia a respeito do resultado de futuras pesquisas ou estudos
decorrentes de fatos novos: "Posteriores estudos ou pesquisas mostrarão
ou provarão que..."
As
"recomendações" raramente vêm tituladas
como tais: o normal é integrarem-se na conclusão.
Agradecimentos
Muitos
trabalhos de pesquisa sob a forma de relatórios ou artigos, quando
subvencionados ou patrocinados por instituições (bolsas
de estudo, fundações, etc.), trazem, muitas vezes, logo
após a conclusão, os, "agradecimentos" do(s)
autor(es). São os acknowledgements das obras publicadas
em inglês, dirigidos também a pessoas (geralmente cientistas
ou técnicos) que prestaram alguma ajuda ou assistência
para a execução do trabalho. Nas obras em formato de livro,
os "agradecimentos" vêm geralmente antes do texto.
Apêndices e anexos
Muitos
relatórios vêm acompanhados de apêndices e anexos,
constituídos por gráficos, mapas, tabelas, dados estatísticos,
desenhos, fotografias e outras espécies de documentação,
além das que possam ter sido inseridas no próprio texto.
Índice
Relatórios
ou artigos muito extensos, cujo texto haja sido minudentemente especificado
em tópicos e subtópicos, devem vir acompanhados do índice
da matéria, de preferência anteposto ao sumário,
como se vê no plano-padrão dado a seguir em 3.1 1.
Referências bibliográficas
Todo
trabalho de pesquisa é de boa norma vir acompanhado das referências
bibliográficas, que devem ser feitas de acordo com as convenções
internacionais. Ver, a esse respeito, 9. Pr.Or.
Plano-padrão de relatório técnico
À
vista das informações precedentes, é possível
agora apresentar o esqueleto" de um plano-padrão de relatório
técnico destinado à publicação, em formato
de livro, folheto ou separata:
A.
Capa
A
capa é geralmente de apresentação livre; mas dela
devem constar, evidentemente, pelo menos o título, o nome do
autor e do editor e a data. Se a publicação
se faz por conta de ou sob o patrocínio de empresa particular,
instituição ou repartição pública,
é de hábito incluir tais referências na capa.
B.
Folha de rosto
A
folha de rosto deve incluir os dados bibliográficos essenciais
à citação da obra:
a) título
b) subtítulo (se houver)
c) autor(es)
d) editor, local e data da edição
C.
Texto
1. Sumário ou sinopse (Recorde-se a nota de rodapé número
13, retro)
1. Introdução
1. Método(s)
1. Resultados
1. Discussão
1. Conclusão
1. Recomendações (opcional)
1. Agradecimentos (opcional)
1. Resumo (em língua estrangeira ou não) (opcional)
1. Referências bibliográficas
1. Apêndice e/ou anexos
Deve-se
deixar claro que esse é um plano-padrão em que a natureza
e a complexidade do assunto, aliadas a um critério pessoal podem
justificar ligeiras alterações ou omissão de algum
tópico. Entretanto, nos trabalhos modelares, essa é '
a, estrutura habitual e aconselhável, como se pode ver no exemplo
a seguir, em que apresentamos apenas os tópicos maiores de um
artigo bastante longo." Como não se trata de livro ou de
separata, faltam os elementos constantes dos itens A e B do plano supra:
STUDIES ON THE PROTEINS OF HUMAN BRONCHIAL SECRETIONS
1.
Summary
2. lntroduction
3. Material and Methods
4. Results
5. Discussion
6. Conclusion (não explicitamente titulada como tal, mas claramente
enunciada nas linhas finais do penúltimo parágrafo e em
todo o último. Aliás, o período final do penúltimo
parágrafo contém uma espécie de previsão
condicionada a ulteriores pesquisas ou informações: "Pending
further information it would therefore seem that...")
7. Acknowledgements (Agradecimentos)
8. References (i.e., referências bibliográficas).
Pouco
diverso desse é o plano de um trabalho de Hélio Póvoa
Jr. sobre "Lipídeos no sêmen":"
1. Resumo (= Sumário)
2. Introdução
3. Material e Métodos
4. Resultados
S. Summary
6. Referências bibliográficas
A
indicação inicial de Resumo, em vez de Sumário,
decorre do fato de aparecer no fim o Summary em inglês, já
que o trabalho está publicado em revista que mantém intercâmbio
com suas congêneres estrangeiras. O Autor não titula especificamente
de Conclusão o último parágrafo do seu trabalho.
No item "4. Resultados", estão incluídas várias
tabelas ilustrativas. A "Discussão" está, por
assim dizer, diluída nos tópicos 3 e 4, critério
adotado com certa freqüência por autores brasileiros.
GARCIA,
Othon M. Comunicação em prosa moderna. Rio, FGV, 1978.