Leia o seguinte texto de Paulo Leminsk:

"Acordou à primeira luz com alguém gritando do alto do mastro do navio:

ali
bem ali naquela pedra
alguém sentou olhando o mar

o mar não parou
pra ser olhado

foi mar
pra tudo quanto é lado

A pessoa continuou gritando, repetindo aquelas palavras, sempre do mesmo jeito, até que todos os marinheiros acordaram. ( ... )

- Quem é esse homem que fala essas coisas engraçadas?

- É um poeta.

- E o que é isso?

- É alguém que fala diferente. Eles não dizem "estrelas", que nem a gente. Dizem "as flores do céu". Não falam só "noite". Falam "o manto da noite". (...) Eles são mágicos, feiticeiros. Dizem que ouvem vozes no vento, no barulho do mar e entendem os gritos dos bichos. (...) Fazem o que querem com as palavras. Nunca acredite no que eles falam. Sempre dizem o contrário do que sentem."


Como podemos perceber, o poeta e, por extensão, os escritores em geral são considerados pessoas que "Fazem o que querem com as palavras". Estamos, pois, diante de uma nova dimensão da linguagem, a linguagem literária. Ela é fonte inesgotável na criação de vocábulos novos. A criação estética, através de recursos estilísticos e com objetivos artísticos, tem renovado o nosso vocabulário.

A expressão literária desconstrói hábitos de linguagem, baseando sua recriação da realidade no aproveitamento de novas formas de dizer. Como o texto literário é plurissignificativo e provoca um prazer estético, esse trabalho de recriação é uma espécie de jogo com a linguagem.

Texto 5

Caso pluvioso

A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.

A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava.

Eu era todo barro, sem verdura...
maria, chuvosíssima criatura!

Ela chovia em mim, em cada gesto,
pensamento, desejo, sono, e o resto.

Era chuva fininha e chuva grossa,
matinal e noturna, ativa...Nossa!

Não me chovas, maria, mais que o justo
chuvisco de um momento, apenas susto.

Não me inundes de teu líquido plasma,
não sejas tão aquático fantasma!

Eu lhe dizia em vão - pois que maria
quanto mais eu rogava, mais chovia.

E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,

que não aquece, pois água de chuva
mosto é de cinza, não de boa uva.

Chuvadeira maria, chuvadonha,
chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha!

Eu lhe gritava: Pára! e ela chovendo,
poças dágua gelada ia tecendo.

Choveu tanto maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa

e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.

E quanto mais as ondas me levavam,
as fontes de maria mais chuvavam,

de sorte que com pouco, e sem recurso,
as coisas se lançaram no seu curso,

e eis o mundo molhado e sovertido
sob aquele sinistro e atro chuvido.

Os seres mais estranhos se juntando
na mesma aquosa pasta iam clamando

contra essa chuva estúpida e mortal
catarata (jamais houve outra igual).

Anti-petendam cânticos se ouviram.
Que nada! As cordas d’água mais deliram,

e maria, torneira desatada,
mais se dilata em sua chuvarada.

Os navios soçobram. Continentes
já submergem com todos os viventes,

e maria chovendo. Eis que a essa altura,
delida e fluida a humana enfibratura,

e a terra não sofrendo tal chuvência,
comoveu-se a Divina Providência,

e Deus, piedoso e enérgico, bradou:
Não chove mais, maria! - e ela parou.

(Carlos Drummond de Andrade)


Comentário do texto 5

O poema Caso pluvioso, de Carlos Drummond de Andrade, também conhecido como Chuva maria mostra bem como a literatura é produtiva no terreno do vocabulário. Maria, de nome próprio, no texto passa a substantivo comum, identificando chuva.

Os versos decassílabos, combinados dois a dois com rimas emparelhadas, nos apresentam ora a chuva espiritualizada em maria, ora maria concretizada em chuva:

A chuva me irritava. Até que um dia
descobri que maria é que chovia.
A chuva era maria. E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.

O uso intenso de linguagem metafórica, ao longo do poema, caracteriza-o como um texto literário. A analogia (maria = chuva) se dá através:

da fertilidade
Eu era todo barro, sem verdura...
maria, chuvosíssima criatura!
da purificação
E chuveirando atroz em meu caminho,
o deixava banhado em triste vinho,
do dilúvio
emocional Choveu tanto maria em minha casa
que a correnteza forte criou asa
e um rio se formou, ou mar, não sei,
sei apenas que nele me afundei.
do dilúvio bíblico
Os navios soçobram. Continentes
já submergem com todos os viventes,


Muitos dos adjetivos empregados para caracterizar negativamente "maria" têm como base "chuva", como é o caso dos derivados: chuvadeira, chuvadonha, chuvinhenta, chuvil e do composto pluvimedonha que apresenta a forma latina pluvia + medonha. Já o adjetivo chuvosíssima, que não traz a conotação negativa, é formado através de outro derivado - chuvoso, com o sufixo -oso ( cheio de ) + -íssimo ( formador de grau superlativo).

Grande parte dos substantivos do texto também derivam de "chuva": chuvisco, chuvarada, chuvência, chuvido, assim como os verbos chuveirando, chuvavam.

Os vocábulos relacionados a chuva ampliam o alcance do texto, revelando contigüidades semânticas, sugeridas pelas lembranças. Assim, podemos perceber a presença de vocábulos e expressões, como: poças d’água, líquido plasma, mosto, vinho, fluida, pingo, torneira desatada, aquosa pasta, correnteza, ondas; e de aguns verbos, como: ensopava, molhando, lava, afundei, inundam enche, soçobram, inundes, submergem.

Há, portanto, no poema Caso pluvioso uma simbolização humana, pessoal da chuva. "Chuva " e "maria se integram em "chuva-maria".

Logo após a identificação simbólica de chuva-maria, se estabelece uma progressão semântica. A partir de pingo, na segunda estrofe, o texto vai num crescendo, passa por uma série de formas plásticas, até chegar a dilúvio:

"A chuva era maria.E cada pingo
de maria ensopava o meu domingo.

E meus ossos molhando, me deixava
como terra que a chuva lavra e lava."


Esta progressão semântica se dá no nível do vocabulário e de combinações inusitadas. Basta um levantamento dos vocábulos relacionados morficamente à chuva para perceber que tal processo se realiza: pingo, chuvisco, chuva fininha, chuvosíssima, chuva grossa, chuveirando atroz, chuvadeira, chuvadonha, chuvinhenta, chuvil, pluvimedonha, mais chuvavam, chuvarada. Poderíamos também fazer o levantamento de outros vocábulos e expressões associados à chuva no texto, mas os exemplos acima já são suficientes para mostrar a progressão.

Neste texto, os vocábulos estão organizados em dois grupos, cada um com um sentido básico, desenvolvendo o seu domínio semântico: chuva e terra [poeta]. Examinemos o campo relacionado a chuva:

substantivo
verbo
adjetivo
chuva chovia chuvosíssima
pingo ensopava fininha
chuvisco molhando grossa
líquido plasma inundes aquático
vinho chuveirando chuvadeira
poços d'áqua chovendo chuvadonha
correnteza afundei chuvinhenta
rio chuvavam chuvil
mar soçobram pluvimedonha
soçobram submergem aquosa
ondas chovendo desatada
fontes chove fluida
curso    
chuvido    
pasta    
catarata    
cordas d'áqua    
torneira    
chuvarada    
chuvência    

Como podemos perceber, os vocábulos agrupados neste campo semântico dão conta do universo do poema. Integrado a este primeiro grupo, temos o campo semântico relativo à terra [poeta], que se manifesta através de nomes, como: terra, ossos, barro, sem verdura, caminho, casa, mundo, seres, navios, continentes, viventes, enfibratura.