Em
outros temas desenvolvidos nesta série - O texto narrativo (tema
6), O texto descritivo (tema 7), O texto dissertativo e a argumentatividade
(tema 8) -, mostramos como a coerência e a coesão ocorrem
nos diversos tipos de texto. Retomando este ponto, lembramos que cada
tipo de texto tem sua estrutura própria, por isso os mecanismos
de coerência e de coesão também vão se manifestar
de forma diferente na superfície lingüística, conforme
se trate de um texto narrativo, descritivo ou dissertativo-argumentativo.
No
texto narrativo,
a coerência existe em função, sobretudo, da ordenação
temporal. Tomemos como exemplo o conhecido poema A pesca, de Affonso
Romano de Sant’Anna, em que não há elementos coesivos.
No entanto há coerência em função de uma
seqüência temporal depreendida não só da ordem
em que foram colocados os substantivos, mas da escolha de vocábulos
de campos semânticos relacionados à pesca.
A
pesca
o
anil
o anzol
o azul
o silêncio
o tempo
o peixe
a
agulha
vertical
mergulha
a
água
a
linha
a
espuma
o
tempo
a âncora
o peixe |
a
garganta
a
âncora
o
peixe
a
boca
o
arranco
o rasgão
aberta
a água
aberta
a chaga
aberto
o anzol
aquelíneo
ágilclaro
estabanado
o
peixe
a
areia
o
sol |
|
| material |
anzol
isca
"agulha"
linha |
peixe |
boca
rasgão
chaga
garganta |
mar |
azul
anil
areia
sol
mergulhar |
A história
infantil A Casa Sonolenta, um texto narrativo
e descritivo, é mais um bom exemplo de como a seqüência
é fundamental para que se estabeleça a coerência
textual.
| Era
uma vez
uma
casa sonolenta
onde
todos viviam dormindo
Nessa
casa
tinha
uma cama
uma
cama aconchegante,
numa
casa sonolenta,
onde
todos viviam dormindo.
Nessa
cama
tinha
uma avó,
uma
avó roncando,
numa
cama aconchegante,
numa
casa sonolenta,
onde
todos viviam dormindo.
Em
cima dessa avó
tinha
um menino,
um menino
sonhando,
em cima
de uma avó roncando,
numa
cama aconchegante,
numa
casa sonolenta,
onde
todos viviam dormindo.
Em
cima desse menino
tinha
um cachorro,
um cachorro
cochilando,
em cima
de um menino sonhando,
em cima
de uma avó roncando,
numa
cama aconchegante,
numa
casa sonolenta,
onde
todos viviam dormindo. |
Em
cima desse cachorro tinha um gato
um gato
ressonando,
em cima
de um cachorro cochilando,
em cima
de um menino sonhando,
em cima
de uma avó roncando,
numa
cama aconchegante,
numa
casa sonolenta,
onde
todos viviam dormindo.
Em
cima desse gato
tinha
um rato,
um rato
dormitando,
em cima
de um gato ressonando,
em cima
de um cachorro cochilando,
em cima
de um menino sonhando,
em cima
de uma avó roncando,
numa
cama aconchegante,
numa
casa sonolenta,
onde
todos viviam dormindo.
E
em cima desse rato
tinha
uma pulga...
Será
possível?
Um pulga
acordada,
que
picou o rato,
que
assustou o gato,
que
arranhou o cachorro,
que
caiu sobre o menino,
que
deu um susto na avó,
que
quebrou a cama,
numa
casa sonolenta,
onde
ninguém mais estava dormindo. |

A
história se estrutura com base em dois momentos:
1º
momento - todos estão dormindo.
2º
momento - todos acordam, cada um por sua vez, movidos pela ação
da pulga.
A
coerência, na primeira parte, se dá pela escolha de vocábulos
do campo semântico de dormir - cama, sonolenta, aconchegante,
roncando, sonhando, ressonando, dormitando, cochilando. Não houve
repetição de nenhum verbo, e cada um deles foi combinado
coerentemente com cada habitante da casa. O caráter descritivo
desta parte se apóia em adjetivos (caracterizando os seres inanimados)
e verbos no gerúndio e pretérito imperfeito (atribuídos
aos seres animados).
A
segunda parte do texto apresenta a mudança desencadeada a partir
da picada da pulga. Os verbos estão no pretérito perfeito,
marcando a ação finalizada.
casa
sonolenta |
casa
acordada |
dormindo
roncando
sonhando
ressonando
cochilando
viviam
tinha |
picou
assustou
arranhou
caiu
deu
quebrou |
Lembramos
ainda o título do conto de Carlos Drummond de Andrade - Flor,
telefone, moça. Os três vocábulos
juntos, aparentemente, não constituem título coerente
para um conto. No entanto, a coerência advém do próprio
conto, que se resume na seguinte história: uma moça, que
tinha o costume de passear no cemitério, um dia, com um gesto
distraído, arrancou uma flor de um túmulo, machucou-a
com as mãos e depois jogou-a fora. A partir daí, passa
a receber insistentes telefonemas feitos por uma voz que reclama de
volta a sua flor. A família se envolve, tentando uma solução
para os telefonemas que, a cada dia, deixam a moça mais nervosa
e sem apetite. O caso termina em tragédia. A moça, sem
ânimo para coisa alguma, acaba definhando e morrendo. Nunca mais
houve telefonemas. Apenas os fatos narrados no conto justificam a ordem
em que os vocábulos foram organizados no título.
No
texto
descritivo, a coerência se estabelece, sobretudo,
em função de uma ordenação espacial. Quem
descreve procura percorrer os detalhes daquilo que descreve, seja uma
pessoa, seja um cenário, seja um objeto, obedecendo a uma seqüência,
com a finalidade de auxiliar o leitor/ouvinte a compor o todo a partir
dessas informações parciais. No trecho abaixo, extraído
de "Vidas Secas", temos uma série de atos que, se alterada,
prejudica a coerência do texto.
"(Sinhá
Vitória) Agachou-se, atiçou o fogo, apanhou uma
brasa com a colher, acendeu o cachimbo, pôs-se a chupar
o canudo de taquari cheio de sarro. Jogo longe uma cusparada,
que passou por cima da janela e foi cair no terreiro. Preparou-se
para cuspir novamente. Por uma extravagante associação,
relacionou esse ato com a lembrança da cama. Se o cuspo
alcançasse o terreiro, a cama seria comprada antes do
fim do ano. Encheu a boca de saliva, inclinou-se - e não
conseguiu o que esperava. Fez várias tentativas, inutilmente.
O resultado foi secar a garganta. Ergueu-se desapontada. Besteira,
aquilo não valia.
Aproximou-se
do canto onde o pote se erguia numa forquilha de três
pontas, bebeu um caneco de água. Água salobra."
|
Com respeito
a essa ordenação das informações num texto
descritivo, é interessante assinalar que a ordem em que são
percebidos os objetos ou os componentes de uma cena pode determinar
a organização linear das seqüências usadas
para descrevê-los, como no parágrafo abaixo:
O
homem estava sentado num tamborete rústico, com os joelhos
cruzados e a cabeça baixa. À sua direita havia
uma mesinha de desarmar, entulhada de lápis de vários
tipos e cores, folhas de papel em branco, borrachas, tesoura
e um pouco de estopa. Havia ainda uma tabuleta em cima da pequena
mesa, apoiando-se na pilastra onde estavam expostos seus trabalhos:
fotografias coloridas de grandes personalidades e caricaturas
também de grandes personalidades.
(Wander
Piroli, Trabalhadores do Brasil)
|
Entretanto,
isto pode não acontecer, ou seja, a ordenação é
feita a partir da seleção das informações
julgadas relevantes, como no texto abaixo:
A
cerimônia esteve muito concorrida. Presidiu o Presidente
da República, que fez o discurso inaugural. Foi preciso
esperar meia hora pelo Primeiro Ministro, que chegou, como sempre,
atrasado e sorridente. |
No
texto dissertativo-argumentativo, é muito
importante para a coerência a ordenação lógica
das idéias. As possibilidades de correlacionar os argumentos
decorrem dos operadores lógico-discursivos empregados. Há
conectores específicos para se expressar as diferentes articulações
sintáticas - causa, finalidade, conclusão, condição
etc - e eles devem ser usados adequadamente, de acordo com a relação
que se quer exprimir ao desenvolver uma argumentação.
É ainda muito importante, com respeito à coesão,
uma combinação cuidosa dos tempos verbais empregados.
Observe:
Depois
que um rolo compressor passou pelo cinema brasileiro, alijando-o
intempestivamente do mercado, é bom saber que existem fórmulas
ao alcance de diretores, produtores, roteiristas e artistas para
retomar o diálogo. O mercado consumidor tem fôlego,
mas tende, por distorção natural, a se voltar para
o filme estrangeiro. Precisa de boa sacudida que o faça
retomar o caminho de casa, desde que, evidentemente, o produto
da casa satisfaça suas expectativas. |
Temos, neste
parágrafo, os conectores mas (idéia adversativa)
e desde que (condição), que não
podem ser substituídos por conectores de outro sentido, sob pena
de alterar o que se quer expressar. As expressões é
bom saber, evidentemente têm a finalidade de introduzir
e reforçar os argumentos. Finalmente, lembramos que o uso do
conector desde que pede o emprego do verbo no modo
subjuntivo, tempo presente, o que foi feito pelo autor do texto (desde
que ... satisfaça). O mesmo se verifica na frase anterior:
Precisa de boa sacudida que o faça... É importante,
pois, escolher os conectores adequados, quando o objetivo é argumentar
de maneira coerente e coesa.

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