Principais
Tipos de Comparação Argumentativa
(Maria Aparecida Lino Pauliukonis)
Observem-se os exemplos, a seguir, em que se ressalta a importância
da estruturação gradativo-comparativa em sentido amplo:
(A)
- Ele não só tratou dos feridos como
também levou-os a sua casa. Tem-se a construção
correlativa aditiva cujo efeito de sentido não pode ser traduzido
pela mera adição de termos, como no caso de uma construção
coordenada aditiva simples. Na construção correlativa,
nega-se um argumento exclusivo, defendido pelo interlocutor, e acrescenta-se
o argumento definitivo de inclusão.
(B)
Ela é mais feia do que a necessidade, não
vai se casar nunca. O uso do comparativo de superioridade transforma
a estrutura comparativa em operador argumentativo, cujo fim último
é orientar o ouvinte para uma conclusão favorável
ao ponto de vista do emissor.
(C)
Quanto maiores as chances de oscilação
abrupta de um preço, (tanto) maiores serão
também as chances dos ganhos especulativos (Jornal Folha
de São Paulo - Editorial - 26/07/96). Este tipo de estrutura
gradativa progressiva acumula as noções de progressão
e oposição: o aumento da propriedade do segundo elemento
é proporcional ao aumento da intensidade da mesma no primeiro
elemento. Esse aumento proporcional é usado argumentativamente
em favor do primeiro elemento.
(D)
Embora não fosse convidada para a festa,
já me disse que virá assim mesmo, para acabar com ela.
As estruturas concessivas determinam um tipo especial de oposição,
em que o locutor apresenta um forte argumento abalizado pelo senso comum
que é anulado por meio de uma visão particular dos fatos,
condicionando assim uma nova orientação argumentativa
para o enunciado.
(E)
Joana falou tanto dessa festa que
eu duvido que ela não irá. As construções
consecutivas constroem um tipo especial de gradação comparativa,
as quais, por se afastarem de um padrão médio das propriedades
consideradas, por meio de um processo intensificador, acarretam um efeito
discursivo retórico que dirige o raciocínio do interlocutor
em uma determinada diração.
(F)
Ele não pode ter denunciado o chefe, pois nem mesmo
chegou a dar um pio durante o interrogatório.
Esse tipo especial de estruturação gradativa pode ser
considerado como comparação, uma vez que funciona como
argumento do emissor, que busca convencer o ouvinte a nada inferir além
de um mínimo delimitado em escala como significativo. Trata-se
de se situar em uma escala argumentativa, que inclui a relação
de dois elementos: "abrir a boca e dar um pio".
(G)
Não me verão naquela festa por
mais que insistam para eu ir. A proposição
"não A por mais que B", ou a estrutura concessiva /
contrastiva intensificada, sugere que num dos interlocutores exista
uma conclusão para a qual A é um forte argumento, usado
em face de B que é um contra-argumento. A correlação
"A por mais que B" condiciona uma nova diretriz argumentativa,
traduzindo o ponto de vista do sujeito da enunciação que
reafirma o tema tratado na principal, em detrimento do que é
defendido pelo senso comum, expresso pela estrutura comparativa intensiva
de superioridade.
Como
se pode notar, pelos exemplos dados, uma leitura com preocupações
voltadas para a análise da enunciação insiste na
necessidade de se observarem os traços pragmáticos presentes
nos diversos enunciados, cuja análise presta-se a descrever as
intenções do sujeito da enunciação, traduzidas
nos respectivos atos de fala da comparação.
(PAULIUKONIS,
M. A. L. Comparação e Argumentação. Duas
noções complementares. In: Discurso, Coesão, Argumentação.
Oficina do Autor, Rio de Janeiro, 1996. p. 39-50.)
