O que torna um texto inteligível, passível de interpretação, é a presença de elementos que assegurem sua compreensão por parte de quem o ouve ou lê. Esses elementos estão relacionados aos conceitos de coerência e coesão (para maiores detalhes sobre esses conceitos, leia o tema 2: O texto como unidade de sentido).

É devido à coerência que um texto apresenta uma unidade de sentido. A coerência é profunda, ou seja, não se evidencia na superfície do texto, porque é essencial ao sentido do texto. A coesão se apresenta de forma explícita, através de marcas lingüísticas - sintáticas, gramaticais e semânticas. Por isso, há estudiosos para os quais

"a coesão é a maneira como os constituintes da superfície textual se encontram relacionados entre si, através de marcas lingüísticas. Já a coerência tem como fundamento a continuidade de sentidos, dizendo respeito ao modo como os componentes do mundo textual são mutuamente acessíveis e relevantes." (Beaugrande e Dressler, 1981).

Para reiterar a questão da coerência no texto de base descritiva, chamamos a atenção para as seguintes considerações de Othon M. Garcia (1973):

"A ordem dos detalhes é, pois, muito importante. Não se faz a descrição de uma casa de maneira desordenada; ponha-se o autor na posição de quem dela se aproxima pela primeira vez; comece de fora para dentro à medida que vai caminhando em sua direção e percebendo pouco a pouco os seus traços mais característicos com um simples correr d'olhos: primeiro, a visão do conjunto, depois a fachada, a cor das paredes, as janelas e portas, anotando alguma singularidade expressiva, algo que dê ao leitor uma idéia do seu estilo, da época da construção. Mas não se esqueça de que percebemos ou observamos com todos os sentidos, e não apenas com os olhos. Haverá sons, ruídos, cheiros, sensações de calor, vultos que passam, mil acidentes, enfim, que evitarão se torne a descrição uma fotografia pálida daquela riqueza de impressões que os sentidos atentos podem colher. Continue o observador: entre na casa, examine a primeira peça, a posição dos móveis, a claridade ou obscuridade do ambiente, destaque o que lhe chame de pronto a atenção (um móvel antigo, uma goteira, um vão de parede, uma massa no reboco, um cão sonolento ...). Continue assim gradativamente. Seria absurdo começar pela fachada, passar à cozinha, voltar à sala de visitas, sair para o quintal, regressar a um dos quartos, olhar depois para o telhado, ou notar que as paredes de fora estão descaiadas. Quase sempre a direção em que se caminha, ou se poderia normalmente caminhar rumo ao objeto serve de roteiro, impõe uma ordem natural para a indicação dos seus pormenores." (Othon Moacir Garcia. Comunicação em Prosa Moderna. Fundação Getúlio Vargas, 1973. P.217)

Fica evidente que esse "passeio" pelo cenário, feito como se tivéssemos nas mãos uma câmara cinematográfica, registrando os detalhes e compondo com eles um todo, deve obedecer a um roteiro coerente, evitando indas e vindas desconexas, que certamente perturbam a organização espacial e prejudicam a coerência do texto de base descritiva.

O texto abaixo, em que não ocorrem marcas lingüísticas de coesão, é um bom exemplo de como a coerência pode ser depreendida da seqüência dos vocábulos.

Texto 2 - Canção do exílio facilitada (José Paulo Paes)

lá?
ah!
sabiá ...
papá ...
maná ...
sinhá ...

cá?
Bah!

Comentário sobre o texto 2

A partir da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias, muitas outras foram escritas, umas no mesmo tom da primeira, como a de Casimiro de Abreu, outras num sentido mais satírico, como a de Murilo Mendes. E esta, de José Paulo Paes, que apresenta no título a palavra facilitada, serve para mostrar como um texto pode ser coerente, mesmo sem apresentar elementos de coesão. Na primeira estrofe, o sentido dos termos colocados em seqüência transmite a idéia de que em outra terra tudo é muito bom. existem pássaros, alimentos, mulheres, tudo em abundância, esta subentendida nas reticências ao final de cada linha. A segunda e última estrofe, composta apenas de dois versos, exprime toda a decepção do poeta com a terra indicada pelo advérbio . A interjeição final - bah - traduz todo o desapontamento do narrador com esta outra terra. A coerência, a unidade de sentido é percebida pela ordem como foram arranjadas as idéias, cada uma delas sumariamente contida numa única palavra. O que à primeira vista se apresenta como uma lista de palavras aparentemente sem sentido, pois não existe entre elas nenhum elo sintático, acaba por se revelar um texto coerente, em que autor fala de sua terra.

Texto 3 - Circuito Fechado (Ricardo Ramos)

Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapo. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, bloco de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetor de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras. Cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, chinelos. Vaso, descarga, pia, água, escova, creme dental, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.

Comentário sobre o texto 3

Este texto em prosa parece, à primeira leitura, um simples aglomerado de palavras. Entretanto, uma observação mais cuidadosa permite ao leitor estabelecer relações semânticas entre os vários grupos de vocábulos encadeados, revelando, a partir dessa organização vocabular, a coerência do texto, que tem como tema a descrição do quotidiano. Mais uma vez fica evidente a possibilidade de um texto ser coerente, apesar da ausência de elementos coesivos.