O
uso literário da língua caracteriza-se por um cuidado
especial com a forma, visando a exploração de recursos
que o sistema lingüístico oferece, nos planos fônico,
prosódico, léxico, morfo-sintático e semântico.
Não
é o tema, mas sim a maneira como ele é explorado formalmente
que vai caracterizar um texto como literário. Assim, não
há temas específicos de textos literários, nem
temas inadequados a esse tipo de texto.
Os
dois textos que seguem têm o mesmo tema - o açúcar:
no primeiro, a função poética é predominante.
É uma das razões para ser considerado um texto literário.
Já no segundo, predominantemente informativo, há o predomínio
da função referencial.
Texto 5: "O açúcar" (Ferreira Gullar. Toda Poesia.
Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1980, pp. 227-228)
O
açúcar
O
branco açúcar que adoçará meu
café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.
Vejo-o
puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.
Este
açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira, dono da
mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.
Este
açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.
Em
lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem de fome
aos 27 anos
plantaram e colheram a cana
que viraria açúcar.
Em
usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.
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Texto 6: "A cana-de-açúcar" (Vesentini,
J.W. Brasil, Sociedade e Espaço. São Paulo, Ática,
1992, p.106)
A
cana-de-açúcar
Originária
da Ásia, a cana-de-açúcar foi introduzida
no Brasil pelos colonizadores portugueses no século
XVI. A região que durante séculos foi a grande
produtora de cana-de-açúcar no Brasil é
a Zona da Mata nordestina, onde os férteis solos de
massapé, além da menor distância em relação
ao mercado europeu, propiciaram condições favoráveis
a esse cultivo. Atualmente, o maior produtor nacional de cana-de-açúcar
é São Paulo, seguido de Pernambuco, Alagoas,
Rio de Janeiro e Minas Gerais. Além de produzir o açúcar,
que em parte é exportado e em parte abastece o mercado
interno, a cana serve também para a produção
de álcool, importante nos dias atuais como fonte de
energia e de bebidas. A imensa expansão dos canaviais
no Brasil, especialmente em São Paulo, está
ligada ao uso do álcool como combustível.
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Comentários sobre os textos 5 e 6: "O açúcar"
e "A cana-de-açúcar"
O texto "O açúcar" parte de
uma palavra do domínio comum - açúcar - e vai ampliando
seu potencial significativo, explorando recursos formais para estabelecer
um paralelo entre o açúcar - branco, doce, puro - e a
vida do trabalhador que o produz - dura, amarga, triste.
a)
associações lexicais entre vocábulos do mesmo campo
semântico:
açúcar |
açucareiro |
adoçar
dissolver |
usina
cana
canavial
plantar
colher |
mercearia
comprar
vender |
b)
relações antitéticas: vida amarga e dura x
açúcar branco e puro
c)
comparações: a comparação é o confronto
de idéias por meio de conectivos, de palavras que explicitam
o que está sendo comparado. Na comparação, um termo
se define em função do que sabemos de outro:
| "Vejo-o
[o açúcar] puro e afável |
como
beijo de moça
(como) água na pele
(como) flor que se dissolve na boca |
|
No
texto "A cana-de-açúcar", de
expressão não-literária, o autor informa o leitor
sobre a origem da cana-de-açúcar, os lugares onde é
produzida, como teve início seu cultivo no Brasil etc.
Para
caracterizar ou explicitar a diferença entre função
informativa e função artístico-literária
da linguagem, através do confronto entre um determinado dado
da realidade e o mesmo dado, reaproveitado em uma obra artística,
podem ser comparadas as seguintes situações:
a)
o barulho de buzinas na rua e uma música que use esse mesmo som;
b)
o som de vozes de crianças brincando e a música
Domingo no Parque (Gilberto Gil);
c)
o som de uma cavalgada e a música Disparada ( Geraldo
Vandré );
d)
uma foto de jornal - uma foto dos sem-terra - e um quadro - Os retirantes,
de Portinari - com o mesmo tema da foto;
e)
várias cenas do cotidiano e uma colagem de Glauco Rodrigues;
f)
imagens de pessoas se movimentando e uma escultura representando
pessoas;
g)
uma pequena crítica sobre a passagem de uma escola de samba e
a música Foi um rio que passou em minha vida ( Paulinho
da Viola).
