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O
escritor de um texto literário, ao explorar conteúdos,
procura recriar a linguagem, e, para essa recriação, utiliza
recursos variados. São alguns deles:
-
ritmos
-
sonoridades
-
rimas e aliterações
a)
Ritmo - evidencia-se pela alternância de sílabas
que apresentam maior ou menor intensidade em sua enunciação.
Texto
13
Quem
dera
Que sintas
As dores
De amores
Que louco
Senti!
(Casimiro de Abreu) |
Textos literários
em prosa também podem apresentar efeitos sonoros e rítmicos.
Como exemplo, transcrevemos um trecho do romance "Gabriela, cravo
e canela", de Jorge Amado (texto 14)
Texto
14
"Gabriela
ia andando, aquela canção ela cantara em menina.
Parou a escutar, a ver a roda rodar. Antes da morte do pai e da
mãe, antes de ir para a casa dos tios. Que beleza os pés
pequeninos no chão a dançar! Seus pés reclamavam,
queriam dançar. Resistir não podia, brinquedo de
roda adorava brincar. Arrancou os sapatos, largou na calçada,
correu pros meninos. De um lado Tuísca, de outro lado Rosinha.
Rodando na praça, a cantar e a dançar." (Gabriela,
cravo e canela, de Jorge Amado) |
Este
texto, em forma de prosa, apresenta um ritmo e uma sonoridade que nos
fazem lembrar os textos em verso. Existem nele:
-
rimas
(escutar, rodar, dançar, brincar);
-
inversões que contribuem para o ritmo e
a rima (os pés pequeninos no chão a dançar,
brinquedo de roda adorava brincar);
-
frases curtas com um número aproximado de sílabas:
seus
pés reclamavam
queriam dançar
resistir não podia
brinquedo de roda
adorava brincar
de
um lado Tuísca
de outro lado Rosinha
rodando na praça
a cantar e a dançar
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Seja em prosa, seja em verso, o texto poético contribui para
o enriquecimento da linguagem, explorando a sonoridade e o ritmo das
palavras e atribuindo-lhes novos sentidos, mesmo quando essas palavras
são as do dia-a-dia.
b) Sonoridade - por meio da sonoridade de um texto,
é possível prolongar, evidenciar ou transformar o sentido
que o léxico e a sintaxe dão às palavras e às
frases.
Texto
15
Som
Nem soneto nem sonata
vou curtir um som
dissonante dos sonidos
som
ressonante de sibildos
som
sonotinto de sonalhas
nem sonoro nem sonouro
vou curtir um som
mui sonso, mui insolúvel
som não sonoterápico
bem insondável, som
de raspante derrapante
rouco reco ronco rato
som superenrolado
com se sona hoje-em-noite
vou curtir, vou curtir um som
ausente de qualquer música
e rico de curtição
(Carlos
Drummond de Andrade. Poesia e prosa.
Rio de Janeiro, Aguillar, 1979, p.784)
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Neste poema,
aproveitando as associações de significantes, o poeta
faz a palavra som ecoar o tempo todo, sob a forma de palavras derivadas
de som, ou de vocábulos que apresentam a seqüência
fônica s o m/n , sem relação semântica
com a palavra som. Observe:
soneto |
sonouro |
sonata |
sonoro
|
dissonante |
sonso
|
sonidos |
insolúvel
|
ressonante |
sonoterápico |
sontinto |
insondável
|
sonalhas |
sona |
Há
também uma seqüência onomatopaica, reproduzindo o
ruído estridente da música moderna:
ressonante |
reco |
derrapante |
ronco
|
raspante |
rato
|
rouco |
superenrolado
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c)
Rimas e aliterações - fonemas que se repetem
com uma freqüência maior que a esperada podem contribuir
para a harmonia do poema; muitas vezes essa repetição
serve para reproduzir o ruído daquilo de que fala o poema, como
nestes versos de Murilo Araújo, em que a insistência do
[i] sugere o barulho provocado pelos grilos.
Texto
16
O
trilo dos grilos, tímido,
de aço fino,
esgrime, com o raiozinho dos
astros, límpido,
argentino.
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No poema de Cruz e Souza, a repetição do fonema [v] contribui
para o efeito sonoro dos versos e evidencia, mais uma vez, o uso poético
da linguagem.
Texto 17
Vozes
veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas. |
Nesta estrofe
do soneto de Alphonsus de Guimaraens, Hão de chorar por
ela os cinamomos, a repetição de vogais nasais
e fechadas contribui para reforçar o conteúdo triste
e sombrio.
Texto 18
Hão
de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia. |
Rima
é a conformidade ou identidade de fonemas, que ocorre geralmente
no final de dois versos diferentes, podendo aparecer também entre
vocábulos no interior dos versos. Existem muitas possibilidades
de disposição das rimas nas estrofes do poema. As mais
freqüentes são as emparelhadas, as alternadas, as opostas,
as encadeadas, as misturadas.
Além
disso, as rimas podem ser classificadas em função da sua
riqueza, que é definida pelo maior ou menor número de
fonemas associados, pelas classes das palavras que rimam pela raridade
das terminações. Neste sentido, as rimas podem ser perfeitas,
imperfeitas, pobres, ricas, preciosas.
O
texto abaixo exemplifica rimas emparelhadas, porque se sucedem
duas a duas, e ricas, pois as palavras que rimam pertencem a diferentes
classes gramaticais (retalha/toalha: verbo e substantivo; multicores/amores:
adjetivo e substantivo; secreta/poeta: adjetivo e substantivo)
Texto 19
Queixas
do poeta
No rio
caudaloso que a solidão retalha,
na funda correnteza na límpida toalha,
deslizam mansamente as garças alvejantes;
nos trêmulos cipós de orvalho gotejantes
embalam-se avezinhas de penas multicores
pejando a mata virgem de cânticos de amores;
mais presa de uma dor tantálica e secreta
de dia em dia murcha o louro do poeta! ...
(Fagundes
Varela)
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A literatura é o veículo, por excelência, da linguagem
em sua função poética, mas não é
o único; podemos perceber também na publicidade,
nas brincadeiras infantis, nos jogos de palavras, nos trocadilhos a
presença da linguagem poética.
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