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No texto
literário, ocorre a desautomatização da
linguagem, relacionada ao processo de recriação do real. Assim, pela reinvenção dos procedimentos
lingüísticos normalmente utilizados no cotidiano, a expressão
literária desconstrói hábitos de linguagem, baseando
sua recriação no aproveitamento de novas formas de dizer.
O uso estético da linguagem pressupõe criar novas relações
entre as palavras, combinando-as de maneira inusitada, singular, revelando
assim novas formas de ver o mundo.
Apresentamos,
a seguir, três textos que exemplificam esse processo: os dois
primeiros, que tratam do mesmo tema, são comparados em relação
aos recursos lingüísticos utilizados, o que os caracteriza
como literário e não-literário, respectivamente.
Texto
7 - "A queimada" (Fragmento. Graça Aranha.
Canaã, Rio de Janeiro, F.Briguiet, pp.111-113)
Texto
8 - "Incêndio destrói prédio de 4 andares no
Centro" (Jornal do Brasil, 19/02/97)
Texto
9 - "Carnaval" (Graça Aranha, A viagem maravilhosa.
Apud William Cereja e Thereza Magalhães. Português: linguagens.
São Paulo, Atual, 1990, p.178)
Texto
7
A
queimada
Num
alvoroço de alegria, os homens viam amarelecer a
folhagem que era a carne e fender-se os troncos firmes,
eretos, que eram a ossatura do monstro. Mas o fogo avançava
sobre eles, interrompendo-lhes o prazer. Surpresos, atônitos,
repararam que a devastação tétrica
lhes ameaçava a vida e era invencível pelo
mato adentro, quase pelas terras alheias. (...) O aceiro
foi sendo aberto até que o fogo se aproximou; a coluna,
como um ser animado, avançava solene, sôfrega
por saciar o apetite. Sobre a terra queimada na superfície,
aquecida até o seio, continuava a queda dos galhos.
O fogo não tardou a penetrar num pequeno taquaral.
Ouviam-se sucessivas e medonhas descargas de um tiroteio,
quando a taboca estalava nas chamas. O fumo crescia e subia
no ar rubro, incendiado, os estampidos redobravam, as labaredas
esguichavam, enquanto a fogueira circundava num abraço
a moita de bambus.
(Fragmento.
Graça Aranha. Canaã, Rio de Janeiro, F.Briguiet,
pp.111-113)
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Texto 8
Incêndio
destrói prédio de 4 andares no Centro
Um
incêndio, possivelmente provocado por um curto-circuito,
destruiu no início da madrugada de ontem um prédio
de quatro andares na Rua Teófilo Otoni, 38, no Centro.
O fogo começou no primeiro andar, onde funcionava
uma empresa especializada na venda e fabricação
de componentes eletrônicos, a Mec Central. O prédio
era de construção antiga e estava em obras;
como havia grande quantidade de madeira estocada, a propagação
do fogo foi rápida. A ação dos bombeiros
evitou que prédios vizinhos fossem atingidos pelas
chamas. Não houve feridos.
(Jornal
do Brasil, 19/02/97)
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Comentários
sobre os textos 7 e 8 : "A Queimada" e "Incêndio
destrói prédio de 4 andares no Centro"
Reconhecemos o texto 7, "A Queimada", como um texto literário,
por apresentar inúmeros recursos expressivos: metáforas
(folhagem/carne; troncos/ossos; o ar rubro) e comparações
(a coluna, como um ser animado, avançava solene). O autor fala
da queimada como se ela fosse um ser vivo, atribuindo-lhe características
próprias de seres animados, como solene, sôfrega, cheia
de apetite. Neste texto, o plano do conteúdo (a descrição
de uma queimada) é recriado no plano da expressão.
No
texto 8, "Incêndio destrói prédio de 4 andares
no Centro", o leitor passa pelo plano da expressão e vai
direto ao conteúdo para entender, informar-se. Trata-se, por
isto, de um texto não-literário, cuja finalidade é
documentar, transmitir notícias. A linguagem
deste texto é denotativa, não apresenta
nenhuma combinação nova ou inusitada de palavras; seu
conteúdo pode ser resumido sem prejuízo da informação
que ele contém.
Texto
7 |
Texto
8 |
| "a coluna
avançava solene e sôfrega" |
"o incêndio
começou no primeiro andar"
"a propagação foi rápida" |
adjetivação
metafórica:
troncos firmes e eretos
descargas medonhas
ar rubro |
ausência
de adjetivação: o incêndio,
o fogo,
o prédio,
propagação do fogo,
a ação dos bombeiros. |
Texto
9
Carnaval
Maravilha
do ruído, encantamento do barulho. Zé Pereira,
bumba, bumba. Falsetes azucrinam, zombeteiam. Viola chora e
espinoteia. Melopéia negra, melosa, feiticeira, candomblé.
Tudo é instrumento, flautas, violões, reco-recos,
saxofones, pandeiros, liras, gaitas e trombetas. Instrumentos
sem nome inventados subitamente no delírio da improvisação,
do ímpeto musical. Tudo é encanto. Os sons se
sacodem, berram, lutam, arrebentam no ar sonoro dos ventos,
vaias, klaxons, aços estrepitosos. Dentro dos sons movem-se
cores, vivas , ardentes, pulando, dançando, desfilando
sob o verde das árvores, em face do azul da baía
no mundo dourado. Dentro dos sons e das cores, movem-se os cheiros,
cheiro de negro, cheiro mulato, cheiro branco, cheiro de todos
os matizes, de todas as excitações e de todas
as náuseas. Dentro dos cheiros, o movimento dos tatos
violentos, brutais, suaves, lúbricos, meigos, alucinantes.
Tatos, sons, cores, cheiros se fundem em gostos de gengibre,
de mendubim, de castanhas, de bananas, de laranja, de bocas
e de mucosa. Libertação dos sentidos envolventes
das massas frenéticas, que maxixam, gritam, tresandam,
deslumbram, saboreiam, de Madureira à Gávea, na
unidade do prazer desencadeado.
(Graça Aranha, A viagem maravilhosa. Apud William Cereja
e Thereza Magalhães. Português: linguagens. São
Paulo, Atual, p.178)
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Comentários sobre o texto 9 - "Carnaval"
Neste texto, os cinco sentidos são explorados de maneira simbólica
e inusitada: sons, cores, cheiros, tatos e gostos vão se sucedendo
para descrever o carnaval, seu ambiente, a mistura de raças,
o contato físico entre as pessoas, a euforia da festa.
Em
primeiro lugar, ruídos e sons de diversos instrumentos enchem
o ar. Acompanhando esses sons, as cores da natureza e das fantasias
se movem, desfilam. Ao ritmo dos sons e cores, movem-se as pessoas das
diversas raças, misturando seus cheiros, variados e inebriantes,
tocando-se das mais diversas formas: pela luta, pelo carinho, pela sexualidade.
Esse contato íntimo conduz a uma fusão de bocas e gostos.
Tudo
isto é o carnaval - "libertação dos sentidos",
proporcionando um "prazer desencadeado". O autor, observador
atento de uma cena, expressa seu modo de ver o mundo, suas preferências,
seu estado emocional. Ele não descreve o que vê, mas o
que pensa ver, o que sente, combinando as palavras de forma inesperada,
revelando novas imagens decorrentes dessas combinações.
Sons:
Cores:
-
movem-se
cores, vivas, ardentes, pulando, dançando, desfilando ...
Cheiros:
-
movem-se
os cheiros, cheiro de negro, cheiro mulato, cheiro branco, cheiro
de todos os matizes, de todas as excitações e de todas
as náuseas.
Tato:
-
o
movimento dos tatos violentos, brutais, suaves, lúbricos,
meigos, alucinantes.
- gostos de gengibre,
de mendubim, de castanhas, de bananas, de laranja, de bocas e de
mucosa.

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