Uma
das características do texto literário é a sua
intangibilidade, sua intocabilidade.
As palavras que foram utilizadas e a maneira escolhida pelo autor para
combiná-las são próprias de cada texto, e não
devemos alterá-las sob o risco de mutilar ou comprometer a intenção
do autor. Não podemos, portanto, num texto literário,
mudar a posição em que as palavras foram colocadas, suprimir
ou acrescentar vocábulos, substituir vocábulos por sinônimos,
resumir as idéias. A esse respeito, o poeta francês Paul
Valéry diz que, quando se resume um texto não-literário,
apreende-se o essencial; quando se resume um texto literário,
perde-se o essencial.
Podemos,
por exemplo, perguntar a diversas pessoas o que pensam sobre o tema
da separação amorosa. Poderão surgir, a partir
de suas respostas, textos líricos, poéticos e textos não-literários.
No Soneto da Separação, Vinícius
de Moraes revela a sua maneira peculiar de tratar esse tema. Pelo trabalho
com a linguagem, pelo uso de recursos poéticos, seu soneto é
um texto literário.
Texto 11
Soneto
da Separação
(Vinícius de Moraes)
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mão espalmadas fez-se o espanto.
De
repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
De
repente, não mais que de repente
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
Fez-se
do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.
|
Apresentamos,
a seguir, um poema de Ferreira Gullar (texto 12) ,
a partir do qual são feitos comentários que evidenciam
algumas características da expressão literária
apontadas no embasamento teórico.
Texto
12
Meu
povo, meu poema
(Ferreira Gullar)
Meu povo e meu poema crescem juntos
como cresce no fruto
a ávore nova
No
povo meu poema vai nascendo
como no canavial
nasce verde o açúcar
No
povo meu poema está maduro
como o sol
na garganta do futuro
Meu
povo em meu poema
se reflete
como a espiga se funde em terra fértil
Ao
povo seu poema aqui devolvo
menos como quem canta
do que planta
|
Comentários sobre o texto 12
Quanto à relevância do plano da expressão/ desautomatização
da linguagem, podemos observar:
a)
a escolha de palavras que compõem as comparações
do poema: o poema nasce como o açúcar, o povo e o
poema crescem como a árvore nova. Estas comparações
levam às metáforas: povo/terra onde brota poema/árvore.
b)
o jogo entre as repetições de estruturas e a quebra dessas
repetições : "Meu povo e meu poema" , "no
povo meu poema", "Ao povo seu poema."
c)
a rima na última estrofe: canta/planta reforça
as metáforas básicas do poema: povo/terra, poema/árvore.
d)
a personificação : "Como o sol na garganta do
futuro."
Dois
planos foram explorados -- o do real e o da recriação
da realidade:
Real
-> o campo da agricultura: plantar, crescer, terra fértil.
Recriação
-> o poeta associa a germinação e a fertilidade à
palavra poética; o poeta é comparado a um plantador; o
poema é o fruto que ele produz (metáfora).
Um
outro exemplo interessante para mostrar a desautomatização
da linguagem encontramos no poema Som, de Carlos Drummond
de Andrade (texto 15), em que o autor, ao invés
de usar a expressão hoje em dia, já cristalizada
na língua, cria a expressão hoje-em-noite.