Intertextualidade

Maria Christina de Motta Maia
Faculdade de Letras/UFRJ

 

Na literatura relativa à Lingüística Textual, é freqüente apontar-se como um dos fatores de textualidade a referência - explícita ou implícita - a outros textos, tomados estes num sentido bem amplo (orais, escritos, visuais - artes plásticas, cinema - , música, propaganda etc.) A esse “diálogo”entre textos dá-se o nome de intertextualidade.

Evidentemente, a intertextualidade está ligada ao “conhecimento de mundo”, que deve ser compartilhado, ou seja, comum ao produtor e ao receptor de textos.

A intertextualidade pressupõe um universo cultural muito amplo e complexo, pois implica a identificação / o reconhecimento de remissões a obras ou a textos / trechos mais, ou menos conhecidos, além de exigir do interlocutor a capacidade de interpretar a função daquela citação ou alusão em questão.

Entre os variadíssimos tipos de referências, há provérbios, ditos populares, frases bíblicas ou obras / trechos de obras constantemente citados - literalmente ou modificados -, cujo reconhecimento é facilmente *perceptível pelos interlocutores em geral. Por exemplo, uma revista brasileira adotou o slogan : “Dize-me o que lês e dir-te-ei quem és”. Voltada fundamentalmente para um público de uma determinada classe sociocultural, o produtor do mencionado anúncio espera que os leitores reconheçam a frase da Bíblia (“Dize-me com quem andas e dir-te-ei quem és”). Ao adaptar a sentença, a intenção da propaganda é, evidentemente, angariar a confiança do leitor (e, conseqüentemente, a credibilidade das informações contidas naquele periódico), pois a Bíblia costuma ser tomada como um livro de pensamentos e ensinamentos considerados como “verdades” universalmente assentadas e aceitas por diversas comunidades. Outro tipo comum de intertextualidade é a introdução em textos de provérbios ou ditos populares, que também inspiram confiança, pois costumam conter mensagens reconhecidas como verdadeiras. São aproveitados não só em propaganda mas ainda em variados textos orais ou escritos - literários e não-literários. Por exemplo, ao iniciar o poema “Tecendo a manhã”, João Cabral de Melo Neto defende uma idéia: “Um galo sozinho não tece uma manhã”. Não é necessário muito esforço para reconhecer que por detrás dessas palavras está o ditado “Uma andorinha só não faz verão”. O verso inicial funciona, pois, como uma espécie de “tese”, que o texto irá tentar comprovar através de argumentação poética.

Há, no entanto, certos tipos de citações (literais ou construídas) e de alusões muito sutis que só são compartilhadas por um pequeno número de pessoas. É o caso de referências utilizadas em textos científicos ou jornalísticos (Seções de Economia, de Informática, por exemplo) e em obras literárias - prosa ou poesia - que às vezes remetem a uma forma e/ou a um conteúdo bastante específico(s), percebido(s) apenas por um leitor/interlocutor muito bem informado e/ou altamente letrado. Na literatura, podem-se citar, entre muitos outros, autores estrangeiros, como James Joyce, T.S. Eliot, Umberto Eco.

A remissão a textos e paratextos do circuito cultural (mídia, propaganda, outdoors , nomes de marcas de produtos etc.) é especialmente recorrente em autores chamados pós-modernos. Para ilustrar, pode-se mencionar, entre outros escritores brasileiros, Ana Cristina Cesar, poetisa carioca, que usa e “abusa” da intertextualidade em seus textos, a tal ponto que, sem a identificação das referências, o poema se torna, constantemente, ininteligível e chega a ser considerado por algumas pessoas como um “amontoado aleatório de enunciados”, sem coerência e, portanto, desprovido de sentido (cf. o poema “Duas antigas II”, de que comentarei alguns aspectos mais adiante).

Os livros que tratam de coesão e coerência textuais costumam conceituar intertextualidade e exemplificar com textos ou trechos de textos. A “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias, exaustivamente parodiada por diversos autores, é invariavelmente citada como exemplo de intertextualidade. A bibliografia disponível não desenvolve satisfatoriamente, entretanto, a função da presença da citação e/ou alusão a outros textos. Voltarei a esse ponto adiante.

Os teóricos costumam identificar tipos de intertextualidade (cf. KOCH & TRAVAGLIA. Texto e coerência. São Paulo, Cortez, 1989. pp.88-89), entre os quais se destacam:

- a que se liga ao conteúdo (por exemplo, matérias jornalísticas que se reportam a notícias veiculadas anteriormente na imprensa falada e/ou escrita: textos literários ou não-literários que se referem a temas ou assuntos contidos em outros textos etc.). Podem se explícitas (citacões entre aspas, com ou sem indicação da fonte) ou implícitas (paráfrases, paródias etc.);

-a que se associa ao caráter formal , que pode ou não estar ligado à tipologia textual como, por exemplo, textos que “imitam” a linguagem bíblica, jurídica, linguagem de relatório etc. ou que procuram imitar o estilo de um autor (cf. texto “Grande ser, tão veredas”, de Paulo Leminski, publicado em A Folha de São Paulo , e reproduzido em KOCH & TRAVAGLIA: 1989, pp.89-90), em que o autor comenta o seriado da TV Globo, baseado no livro de Guimarães Rosa, procurando manter a linguagem e o estilo do escritor);

- a que remete a tipos textuais (ou “fatores tipológicos”), ligados a modelos cognitivos globais, às estruturas e superestruturas ou a aspectos formais de caráter lingüístico próprios de cada tipo de discurso e/ou a cada tipo de texto: tipologias ligadas a estilos de época. Por superestrutura entendem-se, entre outras, estruturas argumentativas (( Tese anterior) - premissas - argumentos (contra-argumentos) - (síntese) - conclusão (nova tese)); estruturas narrativas (situação - complicação - ação ou avaliação - resolução (moral ou estado final) etc.; (cf. FÁVERO, L. Coesão e coerência textuais. São Paulo, Ática, 1991, Vocabulário crítico , p.92 e KOCH & TRAVAGLIA: 1989, pp. 92-93).

Um outro aspecto que é mencionado muito superficialmente é o da intertextualidade lingüística (cf. KOCH & TRAVAGLIA, A coerência textual . São Paulo, Contexto, 1990, p.78). Ela está ligada ao que o lingüista romeno, Eugenio Coseriu, chama de formas do “discurso repetido” (cf. Lições de lingüística geral . Rio de Janeiro, Ao Livro Técnico, 1980, pp.107-110. Ver ainda Princípios de semántica estructural (Gredos), em que o autor desenvolve três tipos de formas do discurso repetido:

- “textemas” ou “unidades de textos” - provérbios, ditados populares; citações de vários tipos, consagradas pela tradição cultural de uma comunidade etc.);

- “sintagmas estereotipados” (equivalentes a expressões idiomáticas);

- “perífrases léxicas”, equivalentes ao que Charles Bally chama de “alianças usuais de vocábulos”, isto é, unidades multivocabulares, empregadas freqüentemente mas ainda não lexicalizadas (ex. “gravemente doente”, “dia útil”, “fazer misérias” etc.).

Em geral, esse aspecto não é suficientemente enfatizado na bibliografia relativa à Língüística textual. Estudando vários textos - orais, escritos - literários e não-literários-, cheguei à conclusão de que esse tipo de intertextualidade é tão importante para a construção/produção/recepção de textos quanto aquilo que é considerado tradicionalmente “intertextualidade cultural”.

A intertextualidade tem funções diferentes, dependendo dos textos/contextos em que as referências (lingüísticas ou culturais) estão inseridas. Chamo a isso “graus das funções da intertextualidade”.

Didaticamente falando, numa escala de 0 a 10, diria que a referência cultural e/ou lingüística pode servir apenas de pretexto - é o caso de “epígrafes” longinquamente vinculadas a um trablho e/ou a um texto. Não quero dizer com isso que todas as epígrafes funcionem apenas como pretextos. Em geral, o produtor do texto elege algo pertinente e condizente com a temática de que trata. Existam algumas, todavia, que estão ali apenas para mostrar “conhecimento” de frases famosas e/ou para servir de “decoração” no texto. Neste caso, estaríamos diante de um grau 0, uma vez que o “intertexto” não tem um papel específico nem na construção nem na camada semântica do texto.

Outras vezes, o autor parte de uma frase ou de um verso que ocorreu a ele repentinamente (cf. texto “A última crônica”, em que o autor confessa estar sem assunto e tem de escrever. Afirma então: “Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: assim eu quereria meu último poema”.). Descreve então uma cena passada em um botequim, em que um casal comemora modestamente o aniversário da filha, com um pedaço de bolo, uma coca-cola e três velinhas brancas. O pai parecia satisfeito com o sucesso da celebração, até que fica perturbado por ter sido observado, mas acaba por sustentar a satisfação e se abre num sorriso. O autor termina a crônica, parafraseando o verso de Manuel Bandeira: “Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso”. O verso de Bandeira não pode ser considerado, nessa crônica, um mero pretexto. A intertextualidade desempenha o papel de conferir uma certa “literariedade” à crônica, além de explicar o título e servir de “fecho de ouro” para um texto que se inicia sem um conteúdo previamente escolhido. Não é, contudo, imprescindível à compreensão do texto. Digamos que estaríamos diante de um grau 5, médio, portanto, na escala didática e artificialmente elaborada.

Considero grau 10 a intertextualidade sem cujo reconhecimento o texto pode tornar-se ininteligível. É o caso do poema “Duas antigas II”, de Ana Cristina Cesar, anteriormente mencionado.

Nesse poema, além da presença de intertextualidade lingüística - formas do “discurso repetido”, há uma série de remissões culturais, literárias, intratextuais (a autora cita trechos de outros poemas seus), difíceis de serem identificados, posto que, entre outras referências, há, por exemplo, o sintagma “os caminos do conhecer”, correspondente ao título de um livro de Ângela Melim, poetisa da mesma geração de Ana Cristina, mas pouco conhecida pelo público não especializado. No meio do texto, a autora emprega a expressão idiomática em inglês (uma das formas do discurso repetido) “F for fake”, que quer dizer “é uma fraude”. Além de exigir do leitor um conhecimento interlingüístico, o texto requer do interlocutor uma outra informação de ordem cultural. “F for fake” é o título de um filme de Orson Welles, que trata de falsificações de quadros. Na realidade, Ana Cristina reúne uma série de frases e/ou expressões - formas de discurso repetido - alheias, com as quais constrói o seu texto. “Dans mon île”, por exemplo, é o nome de uma música interpretada por Caetano Veloso. Há uma citação explícita, entre aspas, retirada de um anúncio de museu. Ocorre a perífrase léxica “fiz misérias” seguida de “nos caminos do conhecer”, já comentado anteriormente. Segue-se um período que contém orações (“porque espero ardentemente que alguma coisa divina aconteça”), que é uma adaptação de um trecho de Bliss , conto de Katherine Mansfield, traduzido para o português pela própria Ana Cristina. Nos trechos subseqüentes, há alusões a versos da própria autora, tirados de outros poemas. Enfim, a poetisa parece estar querendo dizer ao leitor que o seu texto é uma espécie de colagem, ou melhor, de “falsificação” de textos alheios. Sem a compreensão dos intertextos e sem a referência língüístico-cultural de “F for fake”, o texto poderia ser considerado “incoerente”. Na literatura, contudo, muitas vezes, a coerência/ o(s) sentido(s) do texto advêm justamente de uma aparente incoerência que se desfaz, quando se completam as lacunas com informações externas, advindas do universo cultural comum ao produtor e ao interlocutor dos textos. É claro que isso não acontecxe apenas em textos literários. A linguagem do dia-a-dia está repleta de lacunas e de intertextualidades. Textos não-literários também recorrem com freqüência a esse expediente.

Obviamente, na escala didática cabem graduações diversa (grau 1; 1,5; 2; 2,5 etc.), que podem ser exemplificadas com diferentes textos. Quis ilustrar apenas o que entendo por “graus das funções da intertextualidade”. Por esse motivo, procurei dar exemplos de grau mínimo (0); de grau médio (5) e grau máximo (10). Esse aspecto terá de ser ainda desenvolvido, estabelecendo-se critérios mais específicos e fundamentados para aquela graduação, que poderá, inclusive, não coincidir com a leitura de um mesmo texto, feita por outra pessoa.

O que me parece importante é que não se encare a intertextualidade apenas como a “identificação” da fonte e, sim, que se procure estudá-la como um enriquecimento da leitura e da produção de textos e, sobretudo, que se tente mostrar a função da sua presença na construção e no(s) sentido(s) dos textos.

Como afirmam KOCH & TRAVAGLIA, “todas as questões ligadas à intertextualidade influenciam tanto o processo de produção como o de compreensão de textos e apresentam conseqüências no trabalho pedagógico com o texto [...] [grifo meu]”(1989, p.95).

 

 

 

 

Considerada por alguns autores como uma das condições para a existência de um texto, a intertextualidade se destaca por relacionar "um texto concreto com a memória textual coletiva, a memória de um grupo ou de um indivíduo específico" (Mira Mateus et alii, 1983)

Trata-se da possibilidade de os textos serem criados a partir de outros textos. As obras de caráter científico remetem explicitamente a autores reconhecidos, garantindo, assim, a veracidade das afirmações. Nossas conversas são entrelaçadas de alusões a inúmeras considerações armazenadas em nossas mentes. O jornal está repleto de referências já supostamente conhecidas pelo leitor. A leitura de um romance, de um conto, novela, enfim, de qualquer obra literária, nos aponta para outras obras, muitas vezes de forma implícita.

A nossa compreensão de textos (considerados aqui da forma mais abrangente) muito dependerá da nossa experiência de vida, das nossas vivências, das nossas leituras. Determinadas obras só se revelam através do conhecimento de outras. Ao visitar um museu, por exemplo, o nosso conhecimento prévio muito nos auxilia ao nos depararmos com certas obras.

A noção de intertextualidade, da presença contínua de outros textos em determinado texto, nos leva a refletir a respeito da individualidade e da coletividade em termos de criação. Neste sentido, Fiorin e Savioli (1996) afirmam:

"Todo texto é produto de criação coletiva: a voz do seu produtor se manifesta ao lado de um coro de outras vozes que já trataram do mesmo tema e com as quais se põe em acordo ou desacordo."

Já vimos anteriormente que a citação de outros textos se faz de forma implícita ou explícita. Mas, com que objetivo?

Um texto remete a outro para defender as idéias nele contidas ou para contestar tais idéias. Assim, para se definir diante de determinado assunto, o autor do texto leva em consideração as idéias de outros "autores" e com eles dialoga no seu texto.

Ainda ressaltando a importância da intertextualidade, remetemos às considerações de Vigner (1988): "Afirma-se aqui a importância do fenômeno da intertextualidade como fator essencial à legibilidade do texto literário, e, a nosso ver, de todos os outros textos. O texto não é mais considerado só nas suas relações com um referente extra-textual, mas primeiro na relação estabelecida com outros textos".

Para maiores detalhes sobre esse conceito, ler o texto de Motta Maia, Intertextualidade.

Trabalharemos com um texto da disciplina Filosofia ("Questão da Objetividade") e uma crônica de Zuenir Ventura, no JB ("Em vez das células, as cédulas") para concretizar um pouco mais o conceito de intertextualidade.

Texto 8 - Filosofia

Questão da objetividade

As Ciências Humanas invadem hoje todo o nosso espaço mental. Até parece que nossa cultura assinou um contrato com tais disciplinas, estipulando que lhes compete resolver tecnicamente boa parte dos conflitos gerados pela aceleração das atuais mudanças sociais. É em nome do conhecimento objetivo que elas se julgam no direito de explicar os fenômenos humanos e de propor soluções de ordem ética, política, ideológica ou simplesmente humanitária, sem se darem conta de que, fazendo isso, podem facilmente converter-se em "comodidades teóricas" para seus autores e em "comodidades práticas" para sua clientela. Também é em nome do rigor científico que tentam construir todo o seu campo teórico do fenômeno humano, mas através da idéia que gostariam de ter dele, visto terem renunciado aos seus apelos e às suas significações. O equívoco olhar de Narciso, fascinado por sua própria beleza, estaria substituído por um olhar frio, objetivo, escrupuloso, calculista e calculador: e as disciplinas humanas seriam científicas!

(Introdução às Ciências Humanas. Hilton Japiassu. São Paulo, Letras e Letras, 1994, pp.89/90)

Comentário sobre o texto 8

Neste texto, temos um bom exemplo do que se define como intertextualidade: as relações entre textos, a citação de um texto por outro, enfim, o diálogo entre textos. Muitas vezes, para entender um texto na sua totalidade, é preciso conhecer o(s) texto(s) que nele fora(m) citado(s).

No trecho acima, por exemplo, em que se discute o papel das Ciências Humanas nos tempos atuais e o espaço que estão ocupando, é trazido à tona o mito de Narciso. É preciso, então, dispor do conhecimento de que Narciso, jovem dotado de grande beleza, apaixonou-se por sua própria imagem quando a viu refletida na água de uma fonte onde foi matar a sede. Suas tentativas de alcançar a bela imagem acabaram em desespero e morte.

O último parágrafo, em que o mito de Narciso é citado, demonstra que, dado o modo como as Ciências Humanas são vistas hoje, até o olhar de Narciso, antes "fascinado por sua própria beleza", seria substituído por um "olhar frio, objetivo, escrupuloso, calculista e calculador", ou seja, o olhar de Narciso perderia o seu tom de encantamento para se transformar em algo material, sem sentimentos. A comparação se estende às Ciências Humanas, que, de humanas, nada mais teriam, transformando-se em disciplinas científicas.

Texto 9 - Crônica de Zuenir Ventura

Em vez das células, as cédulas

Nesses tempos de clonagem, recomenda-se assistir ao documentário Arquitetura da destruição, de Peter Cohen. A fantástica história de Dolly, a ovelha, parece saída do filme, que conta a ventura demente do nazismo, com seus sonhos de beleza e suas fantasias genéticas, seus experimentos de eugenia e purificação da raça.

Os cientistas são engraçados: bons para inventar e péssimos para prever. Primeiro, descobrem; depois se assustam com o risco da descoberta e aí então passam a gritar "cuidado, perigo". Fizeram isso com quase todos os inventos, inclusive com a fissão nuclear, espantando-se quando "o átomo para a paz" tornou-se uma mortífera arma de guerra. E estão fazendo o mesmo agora.

(...) Desde muito tempo se discute o quanto a ciência, ao procurar o bem, pode provocar involuntariamente o mal. O que a Arquitetura da destruição mostra é como a arte e a estética são capazes de fazer o mesmo, isto é, como a beleza pode servir à morte, à crueldade e à destruição.

Hitler julgava-se "o maior ator da Europa" e acreditava ser alguma coisa como um "tirano-artista" nietzschiano ou um "ditador de gênio" wagneriano. Para ele, "a vida era arte," e o mundo, uma grandiosa ópera da qual era diretor e protagonista.

O documentário mostra como os rituais coletivos, os grandes espetáculos de massa, as tochas acesas (...) tudo isso constituía um culto estético - ainda que redundante (...) E o pior - todo esse aparato era posto a serviço da perversa utopia de Hitler: a manipulação genética, a possibilidade de purificação racial e de eliminação das imperfeições, principalmente as físicas. Não importava que os mais ilustres exemplares nazistas, eles próprios, desmoralizassem o que pregavam em termos de eugenia.

O que importava é que as pessoas queriam acreditar na insensatez apesar dos insensatos, como ainda há quem continue acreditando. No Brasil, felizmente, Dolly provoca mais piada do que ameaça. Já se atribui isso ao fato de que a nossa arquitetura da destruição é a corrupção. Somos craques mesmo é em clonagem financeira. O que seriam nossos laranjas e fantasmas senão clones e replicantes virtuais? Aqui, em vez de células, estamos interessados é em manipular cédulas.

(Zuenir Ventura, JB, 1997)


Comentário sobre o texto 9

Tendo como ponto de partida a alusão ao documentário Arquitetura da destruição, o texto mantém sua unidade de sentido na relação que estabelece com outros textos, com dados da História.

Nesta crônica, duas propriedades do texto são facilmente perceptíveis: a intertextualidade e a inserção histórica.

O texto se constrói, à medida que retoma fatos já conhecidos. Nesse sentido, quanto mais amplo for o repertório do leitor, o seu acervo de conhecimentos, maior será a sua competência para perceber como os textos "dialogam uns com os outros" por meio de referências, alusões e citações.

Para perceber as intenções do autor desta crônica, ou seja, a sua intencionalidade, é preciso que o leitor tenha conhecimento de fatos atuais, como as referências ao documentário recém lançado no circuito cinematográfico, à ovelha clonada Dolly, aos "laranjas" e "fantasmas"- termos que dizem respeito aos envolvidos em transações econômicas duvidosas. É preciso que conheça também o que foi o nazismo, a figura de Hitler e sua obsessão pela raça pura, e ainda tenha conhecimento da existência do filósofo Nietzsche e do compositor Wagner.

O vocabulário utilizado aponta para campos semânticos relacionados à clonagem, à raça pura, aos binômios arte/beleza - arte/destruição, corrupção.

clonagem
experimentos
avanços genéticos
ovelhas
cientistas
inventos
células
clones
replicantes
manipulação genética
descoberta
raça pura
aventura demente do nazismo
fantasias genéticas
experimentos de eugenia
utopia perversa
manipulação genética
imperfeições físicas
eugenia
arte/beleza - arte/destruição
estética, sonhos de beleza
crueldade
tirano artista
ditador de gênio
nietzschiano
wagneriano
grandiosa ópera
diretor, protagonista
espetáculos de massa
tochas acesas
corrupção
laranjas
clonagem financeira
cédulas
fantasmas


Esse campos semânticos se entrecruzam, porque englobam referências múltiplas dentro do texto.