O
Projeto do Atlas Lingüístico-Etnográfico da Região
Sul
O
Projeto do Atlas Lingüístico-Etnográfico da Região
Sul (ALERS), ainda em fase preliminar, tem como coordenador geral Walter
Koch e será desenvolvido por equipes coordenadas, no Rio Grande
do Sul, por Mário Silfredo Klassmann; no Paraná, por José
Luiz da Veiga Mercer; e, em Santa Catarina, por Oswaldo Antônio
Furlan.
Os
três Estados englobados no projeto apresentam peculiaridades lingüístico-etnográficas
decorrentes do processo de povoamento da região. De um lado,
contingentes significativos de imigrantes de origem açoriana,
alemã, italiana, espanhola, polonesa e japonesa; de outro, em
algumas áreas do interior, levas de migrantes vicentinos e paulistas
(no sentido norte - sul) ou gaúchas (no sentido sul - norte)
têm contribuído para imprimir, nos falares locais, traços
bastante diferenciados.
Em
decorrência desses fatores, decidiu-se por um trabalho conjunto,
que se apoiará num único questionário de aproximadamente
quinhentas perguntas, complementado por questões restritas ao
âmbito de cada Estado. Segundo o projeto de pesquisa apresentado
à FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos), o questionário
compreende três partes:
a)
lexical, subdividida em geral e específica;
b)
fonético-fonológica, "que objetivará o registro
de certos traços fonético-fonológicos: segmentais
(vogais, semivogais e consoantes) e supra-segmentais (acentos)"',
c)
morfossintática, "que conterá certos traços
morfossintáticos, tais como as formas de tratamento, o sistema
de pronomes pessoais, a concordância nominal, a concordância
verbal, a flexão nominal e verbal". No item referente
ao léxico, a idéia é a de abarcar as esferas
semânticas propostas por Antenor Nascentes e Serafim da Silva
Neto, para a parte geral; quanto à parte especifica, haverá
questionários especiais, um para cada uma das três atividades
mais representativas das áreas em estudo (agricultura,
pecuária e extrativismo). Prevê-se, ainda, uma amostragem
de cunho diastrático (quer em forma cartográfica, quer
por meio de descrições) nos grandes centros urbanos,
com base nas variáveis sexo, idade e nível de escolarização.
Os informantes serão um homem e uma mulher (um informante principal
e um auxiliar), por ponto de inquérito, subindo seu número
para seis nos conglomerados urbanos escolhidos para a pesquisa sociolingüística.
O
projeto, cujo prazo de realização está estimado
em quatro ou cinco anos, desde já apresenta indícios de
que redundará num atlas mais abrangente do que os já publicados,
em função de, além de objetivar a recolha de material
de natureza lingüística e etnográfica, também
ocupar-se de questões relativas às cidades de grande porte
e, conseqüentemente, de maior complexidade sociocultural.
Cumpre,
no entanto, ressaltar que, em 1969, Heinrich Bunse, com a colaboração
de M. Klassmann, um dos coordenadores do Projeto do Atlas Lingüístico-Etnográfico
do Rio Grande do Sul, publicou Estudos de dialectologia no Rio Grande
do Sul (problemas, métodos, resultados), em que endossava a idéia
de elaboração de atlas regionais, anunciava estar dirigindo
seu trabalho no sentido de realizar o ALERS e dava conta dos primeiros
resultados que obtivera com base na recolha preliminar, por correspondência.
Entre seus planos estava o de estender os pontos de inquérito
a Santa Catarina, ao Uruguai e à zona fronteiriça com
a Argentina e o de ampliá-los na área de encontro da colônia
alemã com a italiana e na de transição da campanha
para a colônia.
Com
o material de que dispunha, elaborou os primeiros nove mapas lingüísticos
sintéticos do Estado e apresentou, em anexo, os questionários
de que se utilizara.
Outro
dado a ressaltar é que, no ano de 1986, em comunicação
ao 1º. Simpósio sobre a "Diversidade lingüística
no Brasil", Vanderci Andrade Aguilera noticiou que desenvolvia,
na Universidade Estadual de Londrina-PR, um projeto sobre o levantamento
dos falares regionais paranaenses, com o objetivo de elaborar o
Atlas Lingüístico do Paraná. Informava, ainda,
que já se contava com algumas cartas experimentais que permitiam
a "visão de algumas isoglossas ou zonas dialetais, bem como
o registro de diversas formas arcaicas"'. No 3º. Encontro
Nacional de Fonética e Fonologia, realizado em João Pessoa-PB
(setembro de 1988), pôde a pesquisadora divulgar as oitenta cartas
que constituem o Esboço de um Atlas Lingüístico
de Londrina (EALLO), uma das etapas de sua dissertação
de mestrado sobre os aspectos lingüísticos da fala londrinense
e que acabou por tornar-se o primeiro resultado concreto do referido
projeto.
Para
a recolha de material lingüístico estabeleceram-se doze
pontos de inquérito, que foram escolhidos com base "na divisão
político-administrativa do município e no lugar de origem
da maioria de seus colonizadores ou habitantes" e utilizou-se,
com pequenas adaptações, o questionário elaborado
por Pedro Caruso para o Atlas Lingüístico do Estado
de São Paulo.
O
EALLO possibilita verificar o que ocorre em regiões de colonização
recente e de intensa imigração, pois, como ressalta sua
autora, "a região norte do Paraná é de colonização
recente, cerca de cinqüenta anos, e foi povoada por uma gama muito
variada de grupos migrantes e imigrantes. Temos noticias de que, em
1935, os proprietários das terras colonizadas pela Companhia
de Terras Norte do Paraná (CTNP) eram em sua maioria estrangeiros
(63%), dentre os quais predominavam alemães, italianos, japoneses,
espanhóis, portugueses, poloneses, húngaros e ucranianos.
O
contingente de proprietários brasileiros (37%) era constituído
de paulistas, mineiros, nordestinos e poucos paranaenses. Este mosaico
de povos e de falas vai-se expandindo e amalgamando com o tempo, de
tal forma que, decorridos cinqüenta anos, impõe-se uma tarefa:
registrar a fala do londrinense não-escolarizado ou com um mínimo
de escolaridade".
Das
317 perguntas que formam o questionário, selecionaram-se 77,
que deram origem a 45 cartas lexicais e a 35 cartas fonéticas,
sendo já possível traçar isoléxicas como
as de arco da velha/do velho, de cuitelo (beija-flor),
de maldita (furúnculo), e a isófona da vibrante
alveolar sonora, intervocálica, que se circunscreve às
regiões leste e sul do município.
Tanto
o trabalho de Heinrich Bunse quanto o de Van-derci A. Aguilera antecipam,
sem dúvida, futuras conclusões do Atlas Linguístico-Etnográfico
da Região Sul, que, por sua vez, poderá beneficiar-se,
ainda, de outro projeto que se desenvolve, em São Paulo, desde
o início da década de 80.
Bibliografia:
BRANDÃO, Sílvia F. A Geografia Linguística no Brasil.São
Paulo, Ática, 1991.
