a via-reta do autor soberano
então o mar se fez do mar — feto de
seu próprio útero — os peixes escheceram de si e acharam ser o próprio mar.
assim, deus, que era também mar, invejou ser peixe, pois sabia não poder não
saber não ser mar somente.
tendo presenciado estas coisas o Mestre assim me disse:
a poesia é um dos caminhos para a perfeição. O auto-conhecimento só é possível
com o abandono do ego. todo conhecimento é inútil sem humildade. só a quietude
permite a Obra.
e assim definiu o caminho do autor soberano:
I. humildade. o autor soberano deve ser consciente de sua pecheneza perante a
Obra. o autor só é autor pela Obra. sua natureza divina não deve ser vulgarizada
II. o caminho da Obra é sempre uma tentativa. o autor soberano já está certo por
seghir, pois seu caminho é torto. a perfeita sabedoria não é premeditada e só o
tolo pisa as pedras já pisadas
III. conhecer a Obra é fundar-se no perpétuo. ser perpétuo não é ser eterno mas
modular secuências no ostinato da Obra. sabê-la é produzi-la. esse é o movimento
IV. a conduta deve ser livre de cualcher preocupação. a vulgaridade é a
inconsciência dos próprios atos. o verdadeiro autor não se importa com o fugaz.
deixa a pérola no abismo. a Obra não admite concorrente — as águas passarão, mas
o rio continuará lá. ser autor é não-ser-nada
V. o autor deve ser um monge e um sátiro. o prazer só é válido pela sua
contemplação
VI. uma árvore tem galhos para pássaros grandes e pechenos. não favorece nenhum
deles. o autor nunca deve compor para si, nem para todos, nem para alguns. em
verdade ele deve compor-se Obra
VII. existem muitos autores e a cada um cabe a sua parte. uma das asas de um
pássaro não mede forças com a outra. da mesma forma o sábio não disputa
sabedoria. assim digo que não se deve medir ninghém pelo seu saber mas pela sua
capacidade de aceitar a sabedoria alheia
VIII. o autor deve ser como o homem que à beira do rio capta o movimento. para
alcançar a poesia é preciso a meditação / contemplação. ser na frecuência das
coisas, em todas as gamas da luz, respirar com o lodo da terra. assim o poeta
deixa de ser poeta e se torna autor. a poesia deixa de ser poesia e se torna
Obra. as coisas deixam de ser objetos. o universo desmorona e num sopro vemos o
ranger por trás do cenário do mundo. o caminho da poesia é o caminho da
iluminação. tudo forma um único código. e esse código é Deus
márcio-andré
02-03-2004