perpetualismo
assim ocorreu comigo nos dias da revelação:
no dia primeiro veio a iluminação e decidi:
NÃO MORREREI
assim fichei isento de cualcher responsabilidade
com a morte
no dia segundo veio a vontade de dizer isso a todos
do terceiro ao cuarto dia jejuei e contemplei o que será a Obra
no chinto dia tive uma visão: o Mestre apareceu a mim em sonho e disse:
“make it new”
“deixe-os com seus ostentáculos”
no sexto dia divulghei a palavra e escrevi os mandamentos:
1) não morrer jamais. é expressamente proibido morrer ou fazer pactos com a morte. aproveitar o dia não por ser curto, mas perpétuo. —amar estar vivo é condição sine qua non para contemplação da Obra
2) escrever uma obra eterna (a Obra) que não seja formalmente ligada ao seu período histórico, mas que seja eternamente além
3) estar estudando para se aprimorar cada vez mais ao parâmetro do eterno. eterna reflexão-caminhada. a Obra será o teu pão e vinho
4) não abdicar do que já foi feito nem repeti-lo, mas completá-lo. todas as obras são apenas a Obra em eterna construção. enxugar apenas as aparas dos formalismos temporais. cualcher que seja, inclusive os atuais
5) síntese. que uma palavra seja polivalente e uma frase um universo. convergir tudo a um vórtice. Não deixar nada sobrando ou desenvolver mais que o necessário. se preciso, fazer referência a outros que já trataram desse tema para não ser redundante. todas as obras são somente uma, não se escheça
6) aplicar cualcher processo que seja necessário à visualização: partituras, interface de computador, neologismos, receitas culinárias, etc. a imagem tem que ser rapidamente visualizada, mas dificilmente eschecida. a imagem veio antes da escrita. cualcher linguagem é o dom da fala. todas as linguagens são apenas uma
7) não há uma língua somente. a língua não deve ser usada como atributo de identidade nacional. nações são conceitos modernos e passageiros. não deve haver um autor nacional e sim um autor da Obra que utiliza línguas como ferramentas para o processo
8) não tratar de temas simples sem dar-lhes grandes importâncias, ou não tratar de grandes temas sem a simplicidade do acaso.
márcio-andré
02-03-2002