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a sintaxe das ruas

 

 

 

A rua é uma escrita e como toda escrita tem sua sintaxe. Mas o que me faz pensar que a rua seja uma escrita? Para o Professor Emmanuel Carneiro Leão, a Viagem é a linguagem da paisagem; Uma paisagem é a linguagem das vias. Nesta perspectiva, a rua seria a linguagem das casas. Uma rua não é propriamente um lugar material. Não é, como lembra Boaventura, o avesso das casas, mas um espaço interstício que só existe em movimento. Uma rua só tem sentido como possibilidade de caminhada e possibilidade de um destino. Não há estrada que não leve a parte alguma — mesmo uma rua sem saída e sem prédios leva a algum lugar no qual muitos já precisaram ir. Logo, a rua só é rua porque necessitamos caminhá-la, porque as casas, enquanto moradas singulares, precisam ser lidas em seu conjunto na escrita do improviso dos pés, consumação ortográfica da poética das casas, citada nos dois ensaios precedentes. É no caminho que as casas tomam seqüência e sentido, escrevem um nome que vem antes de nós.

Caminhar é a única possibilidade de significar as ruas (e as casas), pois o caminhar é parte fundamental do habitar. A rua faz parte da casa enquanto aquela que a identifica em sua singularidade de chegada e partida. Morar é somente uma parte do processo. Se a casa guarda e gesta na escuridão, ir para a rua é nos dar à luz. Se a casa nos oferta abrigo, a rua nos impele a ir. Se na casa nos demoramos, com a via nos comovemos. Em nenhuma imagem, a relação com o destino, presente na matéria celeste das casas, está tão evidente. A rua é aquela pela qual os caminhos se cruzam e se refazem em suas diversas possibilidades, o estado pelo qual as casas não se cansam de nós.

O ideograma chinês tien pode tanto significar céu, como destino, e não é preciso fazer um esforço muito grande para encontrar essa relação na astrologia ocidental. Assim, a rua, imagem grosseira para destino, é também uma imagem sutil para céu (esta relação entre as construções humanas e o céu, apesar de insistentemente tratada nos ensaios anteriores, é o eixo fundamental de nossa reflexão, e é impossível não voltarmos sempre a ela). O professor Emmanuel, um pouco mais adiante no mesmo livro, escreve: Para os viajantes, cada via se apresenta separada e diferente da paisagem, dos viajantes, das outras vias. E, no entanto, nenhuma via desvia. Todas aviam a viagem dos viajantes na paisagem. Aviar a viagem na paisagem é estar debaixo do céu — único em qualquer parte e, apesar disso, nunca o mesmo — e somente um homem habitante de casas pode fazê-lo. Uma rua é sempre outra rua e ainda assim a mesma rua. Ela está sempre em nós, assim como o barro de Prometeu sujo de divindade. É por já estar em nós que podemos e precisamos desvendá-la caminhando, rumo à consumação de nosso destino. Caminhar as vias, portanto, é desvendarmo-nos, caminhantes. Desvendarmo-nos é aviar a Via Láctea. Cada rua caminhada é uma cosmogonia, cada caminhante da rua é um argonauta. É preciso mantermo-nos em movimento caso não queiramos nos perder das estrelas, sem astrolábios.

A caminhada potencializada na corrida é a necessidade de emergência dos caminhos. Em dois filmes que tratam essencialmente do destino, Corra Lola, corra e Forrest Gump, o correr está relacionado à necessidade de refazer, a cada instante, as possibilidades de um acaso. Gump e Lola são imagens do desterro de si, drama fundamental humano, pelo qual nos movemos à procura de nós mesmos. Tanto João do Rio quanto os Situacionistas, pensadores da rua, evocam para a caminhada um lugar de auto-conhecimento. A deriva (no caso dos Situacionistas) e a flanérie (em João do Rio) seria a única possibilidade possível de dar sentido às ruas, às casas e a nós mesmos. Ambos falam de uma psicologia das ruas (os Situacionistas cunharam o termo psicogeografia). Queriam entender qual a relação “metafísica” entre as ruas e o homem, por que elas nos fascinam tanto com seu comportamento deveras humano. Mas a questão nunca foi psicológica. A psicologia se detém no que o homem compreende (ou acha compreender) de sua “alma”. As ruas nos tocam o corpo. E principalmente, as ruas nos tocam a parte desconhecida de nosso corpo — a mesma que um dia se encanta tão fortemente com o mundo que entra em combustão espontânea. Tanto Gump quanto Lola correm porque sabem que somente os pés podem levá-los a algum lugar. Hermes recorria ao mesmo aparelho. A psicologia não pode jamais explicar a hermenêutica dos pés ou a emergência do destino.

As ruas são lugares delicados, onde uma simples curva pode levar a lugares hostis. Numa simples mudança de via podemos sair de uma região segura e entrar num bairro perigoso. De uma pracinha em Cascadura, com gangorra e balanço, decidimos se queremos ir para uma rua arborizada, calma e aconchegante à direita ou se preferimos, seguindo pela esquerda, uma avenida escura e triste à beira da linha do trem. O risco de virar uma esquina e mudar de mundo, a fragilidade da sintaxe prevista na própria sintaxe das ruas, nos faz deparar a cada instante com o risco de ter nosso destino alterado. Há ruas que se enganam de cidade e há ruas que se enganam de país. Estas parecem ocupar sozinhas um lugar que não lhes pertence. Cada rua, um universo. Cada ângulo, outra rua. É assim a sintaxe desse não-lugar de caminhança. Cada pedacinho de rua, margeada por casas únicas, nos arrebata de maneira diferente. Basta olhar com sinceridade para elas. Por exemplo, a Rua Lucídio Lago, no Méier, em frente ao número 233 não é a mesma em frente ao número imediatamente seguinte, o 217, aliás, continuação física do mesmo edifício. E é ainda mais radicalmente diferente do batalhão da polícia logo ao lado. O que dizem são coisas absolutamente diferentes, são três modos distintos de a rua acentuar e pontuar sua escrita.

As ruas recordam sua memória de labirinto. Um labirinto dissimulado, sem minotauros, sem muros, mas ainda assim cheio de armadilhas para nosso ser. As galerias que interligam ruas são tentativas de somar ainda mais vias, multiplicar os destinos, potencializar as curvas. Um labirinto não se amplia para fora, mas para dentro dele mesmo. Quanto mais interno, mais labirinto, efetivamente, ele se torna, multiplicado de desvios, de ligações, de ruas sem saída. Se por certos ângulos o real é metálico, há lugares onde a realidade, por ter mais ângulos, é mais sólida. As ruas, lagartas de desejos, desdobram outras ruas para economizar horizonte. Por isso a sintaxe das ruas é uma sintaxe tão móvel quanto as ruas. Agem com a autonomia de um organismo programado segundo o movimento dos astros. Mas deve-se ter cuidado, os perigos se perfazem no exagero dessa regra. Criar diretrizes em sua programação (com o poder outorgado por nossa essência divina) é traí-la, pois esta independe de nós. Os bairros planejados, os condomínios de luxo, a especulação imobiliária são aberrações, uma ofensa ao céu, uma tentativa grosseira de regrar o firmamento segundo a ganância humana.

Mas não pensemos as ruas como os únicos caminhos passíveis de serem sonhados. Falar das vias é falar de qualquer artéria que irriga a cidade. A rua é apenas uma das inúmeras metáforas para via. As ruas asfaltadas não são mais ou menos viáveis que um beco, uma vila, uma linha de trem ou uma simples trilha por um terreno baldio.Toda via é um traçado de nossas rotas. Todas elas perfazem caminhos até as casas e se interligam. Não há via que não seja humana — um rio só é navegável graças ao barco. Mesmo as linhas de trem, impiedosas na inflexibilidade de seus trajetos, atravessando as partes mais solitárias dos bairros, não esquecem de fazer seu zootrópio de casas. Também ali se lê a escrita das moradas, em um ritmo de cópula.

E existem ainda outros caminhos esquecidos. Alguns invisíveis para quem anda a pé. O Google Earth é uma ótima ferramenta para percorrê-los. Os rios, hoje transformados em valões imundos — ah, se pudéssemos navegá-los! Faríamos os caminhos por trás de cada quintal dos fundos, percorreríamos os becos aquosos voltados para o cu das casas, com suas bananeiras velhas, seus cães ladrando, seu silêncio antigo de roça. Com alguns cliques é fácil segui-los até os limites da cidade, quando se perdem no obscuro abismo da selva.

É possível mesmo, com a ajuda do programa, encontrar vias inviáveis. Em certa madrugada, recapitulando os caminhos que tinha percorrido durante o dia, reparei, pelo satélite, em uma via larga que cruzava a cidade, sem ser interrompida por nenhuma construção ilegal, apesar de atravessar várias favelas. Uma espécie de estrada imaculadamente verde que ia de Queimados até Jacarepaguá, com ramificações inesgotáveis. Fiquei tentando compreender que caminho seria aquele, pois apesar de extremamente largo e visível no mapa,  passava pelo fundo das casas e dificilmente poderia ser percebido pelos transeuntes. Com algum esforço de memória,  recordei as inúmeras hortas urbanas que existem no subúrbio, e entendi que estas eram lugares por onde se podia entrever esta via misteriosa. E então compreendi: tratava-se do trajeto das torres da Ligth. Gigantes de alta tensão movendo-se calados numa procissão de aço. Um caminho possível somente para aquele que olha de (ou para) cima. Em Nova Iguaçu estes caminhos foram efetivamente transformados em estrada: a chamada Via Ligth.

Todas essas vias, transitáveis ou não, com seus vasos, seus poros, seus líquidos linfáticos de lodo e fuligem, constituindo esse organismo chamado cidade, estão aqui, nos limites de nossa anatomia humana. Cada cruzamento repete as articulações de um nosso corpo de firmamento. Ter corpo é morar nos próprios limites do corpo. Morar é desejar a viagem. Para compreender a sintaxe das ruas na poética das casas é preciso ser, antes de tudo, um viajante: encontrar, na morada, o rumo da viagem e, na viagem, a coordenada da morada. No sonho do viajante toda paralela de meio-fio se cruza no horizonte. No sonho do viajante sempre se chega onde se está. Assim se configura a sintaxe das ruas, no sentido das vias — casas mobili. Morar é ser viajante de casas. Aquele que não consegue entender o fascínio das vias, por mais distante que chegue, não pode compreender a verdadeira força de atração das casas. Esta poética escrita no movimento, só existe enquanto a ação de distanciar-se. Nenhuma via é feia, suja, incompleta, perigosa ou menos digna de ser pensada, se percorrida com a sinceridade dos astros. Para aqueles que ainda têm dificuldade de enxergar essa poética das casas, aconselho a caminhar junto com o nascer do sol. À luz da manhã até deus se enternece. Toda via evoca distâncias, invoca desejos de se perder no não visitado. Quando amas é preciso partir — com este verso, Cendrars tece o destino do viajante oculto em cada um que habita casas, nas ruas que te levam para longe, na distância que se encurta no desejo. O mundo inteiro está sempre aqui. Partamos.





MÁRCIO-ANDRÉ
é poeta, músico, editor e design, autor dos livros Movimento Perpétuo e Chialteras e coordenador do projeto Arranjos para Assobio, de texturas poéticas e realidades experimentais (http://arranjos.confrariadovento.com). Trabalha na tradução de poesia de Arnold Flemming, Serge Pey, Ghérasim Luca e Bernard Heidsieck e edita a revista literária Confraria. Suas páginas são www.marcioandre.com e http://marcioandre.confrariadovento.com

 


 

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