5 - Um homem só?
toca início de 'Symphonie pour un homme seul', de Pierre Schaeffer e Piere Henry (20")
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'Chegou enfim um jovem compositor, com honrosos antecedentes, laureado no Conservatório, aluno de Messiaen, demonstrando possibilidades imediatas. Pianista e sobretudo baterista virtuose, uma aparência frágil o predispunha àviolência. Um instinto de poder, bem característico de sua geração, levava-o ao cúmulo da ruptura, um mínimo de melodia e pouquíssima harmonia. Supostamente um passageiro efêmero, Pierre Henry entrou no estúdio para não mais deixá-lo. A 'Sinfonia para um homem só' começou quando amizade desses dois seres isolados jáestava selada.' (P. Schaeffer)
toca início de 'Erotica', da 'Symphonie pour un home seul', de Pierre Schaeffer e Piere Henry (20")
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'A 'Symphonie' se apresentou como reação a um trabalho anterior para o qual trabalhei com sons da orquestra. Jáque a orquestra me tinha pregado uma peça, decidi escolher meus elementos iniciais num terreno oposto ao da música. O 'homem só' devia encontrar sua sinfonia em si mesmo. Um 'homem só' possui muito mais do que as doze notas do som solfejado. Ele grita, assovia, anda, bate com o punho, ri, geme. Seu coração pula, seu fôlego acelera, ele pronuncia palavras, grita por socorro e outros chamados se fazem ouvir. Nada ecoa melhor um grito solitário do que o clamor das multidões.' (P. Schaeffer).
Da parceria entre Pierre Schaeffer e Pierre Henry, vamos ouvir: 'Symphonie pour un homme seul', de 1950.
toca 'Symphonie pour un homme seul', de Pierre Schaeffer e Pierre Henry, (21.5')
Herdeiro de Schaeffer no que diz respeito àescuta reduzida, o compositor neo-zelandês Denis Smalley, ex-aluno de Olivier Messiaen, propõe uma análise musical fundada sobre a percepção, chamada 'espectro-morfologia', na qual os aspectos temporais são valorizados.
'Se a música eletroacústica descobriu alguma forma nova? Nós evitamos cuidadosamente a palavra "forma", que históricamente veio a implicar numa consistência relativa a um 'design' estrutural externo comum a muitos compositores. Em seu lugar adotamos o termo 'estrutura' e 'processos de estruturação, aplicando-os a unidades detectadas tanto em níveis micro quanto macro. Além disso, a velha idéia de "forma musical" estábaseada nas virtudes cardinais fixas e mensuráveis de altura e tempo métrico. A espectro-morfologia das músicas eletroacústicas, isto é, o procedimento que propomos para a apreciação destas músicas, não se baseia em quantidades, mas na percepção de qualidades cuja natureza complexa resiste a uma sistematização permanente ou semi-permanente, necessária como fundamentação para um consenso formal. Então émelhor evitarmos a confusão com noções tradicionais do que éforma, deixando de usar este termo. Entretanto, nós achamos que, se a música em sua vertente espectro-morfológica quiser ter seus ouvintes, deveráhaver um consenso a respeito de seus processos de estruturação. Uma proliferação de configurações estruturais nova e única tem sido composta sobre essas fundamentações.' (D. Smalley)
toca 'Wind Chimes' de Smalley (14')
François Bayle: 'Eu estava entre Schaeffer, Messiaen et Stockhausen, quando era jovem, '....'Schaeffer era fascinante, Messiaen era fascinante, Stockhausen era fascinante. E de minhas três fascinações, fui escolher a mais ineficaz. Justamente o que me atraía em Schaeffer era essa incerteza, esse desejo de não culminar, que nos deixa uma grande liberdade. Messiaen, jáum homem de idade, era o que menos me interessava, embora sempre lhe admirasse o saber extraordinário, todas essas qualidades que conhecemos, que implicava numa espécie de academicismo que não me interessava. Stockhausen representava um certo dinamismo, mas um dinamismo ultra-perfeccionista, de especialista. E Schaeffer era a mobilização total do espírito, e, sem objetivo!. Eu fiquei completamente apaixonado por isso.' (F. Bayle)
toca Bayle
Bayle:'Não havia muitas músicas [contemporâneas] que Schaeffer aprovasse. Ele adorava a música de Pierre Henry. Amava-a de um modo tão exclusivo que não havia outra música que lhe pudesse entrar pelos ouvidos se não a de Pierre Henry. A de Parmegiani ainda passava, mas a de Pierre Henry lhe era totalmente suficiente. Schaeffer ficava inteiramente sem dúvidas. Não havia mais a questão de saber se o gênero que ele havia criado e inventado estava certo ou não, se havia feito mal ou não de enviar jovens estudantes na direção da música concreta. As dúvidas desapareciam.'(F. Bayle)
Éde Pierre Henry a obra que escolhemos para nos despedir de Pierre Schaeffer. Seu título é'Négation', e éparte de uma obra de Henry de 1990, intitulada: 'O Livro Tibetano dos Mortos'.
toca 'Negation', do Livro Tibetano dos Mortos, de Pierre Henry (4'20").