In Memoriam
Pierre Schaeffer
(1910 - 1995)
"Terça-feira, 5 de outubro de 1948, às 21 hs., Club d'Essai, Chaîne Parisienne, Radiodifusão Francesa. Locutor: Jean Toscane.''
"- O Clube de Ensaios da Radiodifusão Francesa apresenta um concerto de ruídos, concebido e realizado por Pierre Schaeffer..."
Aos oitenta e cinco anos recentemente completados, faleceu em Paris o taumaturgo moderno, o músico de todos os sons: Pierre Schaeffer, criador daquele concerto radiofônico que atéhoje não foi suficientemente avaliado.
Foi assim o inventor da música concreta, mas também militante da resistência francesa, admirador de Gurdjieff, comunicólogo e romancista, fumante metódico de cigarros, cachimbo e charutos, entre pastilhas de alcaçuz com menta (o Cachou Lajaunie). Polemista contra Boulez e Stockhausen; vaiado, em Donaueschingen, em 1953, por sua montagem de 'Orfeu': numa época de a prioris serialistas, era um homem que acreditava que a música deve ser feita, antes de tudo, para ser ouvida. Autor, dentre outras obras, do 'Tratado dos Objetos Musicais', o livro que muitos compositores deveriam de ter sempre na cabeceira - se não para guiá-los música adentro, pelo menos para inibir os excessos da autoconfiança. Autor também das primeiras obras musicais a utilizarem sistemáticamente o som gravado em suporte, quatro décadas antes da indústria lançar os samplers. Co-autor, com Pierre Henry, da 'Sinfonia para um homem só', cuja poesia do título - contraposta ao fato de ser uma obra feita a quatro mãos - indica, de início, a solidão deste homem que era dois. O taumaturgo que acaba de morrer, derrotado - não pela idade avançada - pela doença de Alzheimer, era um homem cada vez mais dividido entre o orgulho de sua invenção e o medo de que seus desdobramentos pudessem levar ao arrependimento do 'aprendiz de feiticeiro'. Sua crítica incessante àtecnologia étão eloquente quanto o poder de sua invenção: a música de todos os sons, que gerou a dúvida e estas perguntas ainda não respondidas: isto émúsica?
O que émúsica? O que éa música? Se a herança da música concreta levasse a uma ruptura inexorável com a tradição, então, para ele, seu projeto não teria vingado. Entretanto, tal como Orfeu, Pierre Schaeffer não esperou para verificar, voltando-se antecipadamente para sua Eurídice - a música - e a viu morta.
A quem o estudou, trabalhou ou estudou com ele, ou de alguma forma se interessa por seu legado, a frase do compositor François Bayle define a tônica do momento:
"...eis-nos órfãos agora,...e daí ainda mais responsáveis.."
R. Caesar. 09/95.
Pour un homme seul:
Série de cinco programas radiofônicos em homenagem a Pierre Schaeffer, idealizados e apresentados por Rodolfo Caesar, produzidos e levados ao ar pela FM Cultura, de São Paulo, em dezembro de 95.
Participaram da produção: Denise Garcia, JoséAugusto Mannis, Silvio Ferraz, e Julio di Paula (produção). A coordenação foi de Regina Porto.
A série foi ilustrada com peças do próprio homenageado, e com outras de: Aquiles Pantaleão, Christian Zanési, Denis Smalley, Denise Garcia, François Bayle, Michel Chion, Pierre Henry e Rodrigo Cicchelli Velloso.
1- A origem da espécie.
2- O époché.
3- Schaeffer em duas lições.
4- O olhar de Orfeu.
5- Um homem só?